3° Capítulo
Visitas
Três anos se passaram enquanto
eu estudava a teorias das nevoas. Li e reli várias vezes cada trecho do
Grimório deixado de herança pela velha bruxa. Estava certa de que com aquele
conhecimento minha vingança seria definida com a vitória.
Eu tinha um plano.
Certo dia, quando eu andava pelas
feiras de Rousack ouvi dizer que em San-Dellot aconteciam encontros de magos e
bruxos que duelavam em batalhas físicas e espirituais em função do bom nome das legiões a quem pertenciam.
Era óbvio que essas batalhas aconteciam a mando dos próprios mestres, Lordes ricos,
que queriam marcar território demonstrando o poderio de sua Casa.
Esses campeões carregavam as
bandeiras de seus mestres - coisa que eu nunca mais faria em minha vida. Na
verdade o que me chamou a atenção foi um grupo que se intitulavam os “Granins”,
magos sem mestres. Talvez compartilhassem dos meus motivos. Identifiquei-me com
esses renegados.
Foi aí que tive a brilhante idéia
de recrutá-los. Tudo o que queriam era apenas a oportunidade de vingança contra
os mestres que os renegaram e os expulsaram de suas legiões - E eu os daria
essa oportunidade.
Quando lhes contei minha idéia
tudo que ouvi foram risos. Não acreditavam em mim, diziam que era um plano suicida.
Alguns até se interessaram, mas desconfiavam de meu poder de liderança, afinal
de contas eu sou uma mulher. E mulheres são feitas apenas para o gozo dos
homens.
- Se resolverem mudar de idéia me
procure.
O homem riu e perguntou-me:
- E quem é você?
- A Bruxa das Névoas – Um breve
silencio tomou conta do ambiente enquanto eu me retirava.
No mesmo dia, após algum tempo, algo acontecera
para abrilhantar minha imagem. Percebi a presença de três homens que entravam
no bosque. As nevoas me davam esse poder, tudo o acontecia naquela floresta
estava intrinsecamente ligado a mim.
Tempos antes, segundo os relatos
da Velha Bruxa, os Wagener enviaram soldados numa tentativa frustrada de
convencê-la a unir forças com a Legião.
Acho que a historia se repetia e desta vez eu
era a protagonista.
Leoni não perdia tempo, sempre
tentando alienar personalidades poderosas a fim de recrutá-los para sua elite.
Queria conhecer a Bruxa das Névoas pessoalmente.
Toc, toc, toc - Já estava à porta
quando os homens resolveram batê-la.
- Bruxa das Nevoas, temos uma
proposta para lhe fazer, se puderes sair à luz ficaremos gratos - Dizia um
deles com voz tremula.
- Viemos em paz - Outra voz ao
lado se manifestava.
Paz? Quando se tratava de Leoni,
as conversas não eram brandas.
Corri até o quarto e peguei um casaco
velho de pano, me vesti e cobri-me o rosto com o capuz. Abri a porta
vagarosamente para aumentar a tensão dos campeões.
Tremiam. Estavam apavorados.
- Nossa mestra deseja vê-la! –
disse um dos homens.
- Em que nome vocês vieram?
- Le... Le... Leoni. Membro do
conselho dos bruxos e líder da legião Wagener – O mais novo tomava a palavra.
Reconheci os três assim que os
vi. Pertenciam a terceira elite de bruxos. Um deles estava no último dia em que
vi Leoni. Ele era um dos guardiões que me escoltou até o saguão da mansão.
- Qual seria essa proposta que os
fizeram entrar em meus domínios? - Modifiquei a voz na intenção de deixar o
clima tenso. E deu certo.
- Viemos lhe ofertar a entrada na
maior Legião de Magos da história desse mundo, Senhora!
- E o que os faz pensar que eu
aceitaria me juntar a vocês? Sabem muito bem que eu sou a Bruxa das Nevoas,
solitária. Na verdade digo ainda mais, são muito corajosos em estar aqui.
Um deles, justamente o que me
escoltara em tempos passados, me olhava atentamente. Acho que desconfiara de
algo.
- Conheço essa voz! Você estava
na mansão - Foi logo dizendo o delator. Os olhos se tornaram latentes e as pupilas
se dilataram. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto.
Nesse momento, quando me
reconheceu, assinou sua sentença de morte. Se algum deles escapasse dali
certamente traria reforços numa tentativa de captura à minha pessoa.
Os mercenários posicionaram-se em
minha frente indicando que uma batalha estava para começar. Deixei que capuz
deslizasse sobre minha cabeça revelando meu rosto. Espantaram-se.
Dizia um com o outro:
- Sua pele está branca, seus
lábios sem vida e os olhos avermelhados.
A tempos que não me olhava no
espelho, poderia ser que minha face realmente tivesse envelhecida ou de
aparência abatida.
- Odeio visitas inesperadas. São
muito audaciosos. Vocês entram em meu bosque, perturbam minha paz e me repelem
como se eu fosse um monstro. Se realmente me vêem dessa forma, lhes mostrarei o
monstro a que me tornei.
Dito isso me elevei ao estado de Efatar e iniciei a caçada. As Nevoas se
alastraram ao nosso redor. Como animais assustados, não por me verem e sim
pelas nevoas que aos meus pés se faziam, começaram um ataque repentino.
Mal sabiam eles que já estavam
sob meu encantamento. Os homens encontravam-se perdidos na mais profunda ilusão
de seu subconsciente.
Uma oportunidade rara. Testar
meus novos poderem em humanos, ou melhor dizendo, em bruxos de elite. Estava
certa de que minha vitoria era garantida.
Sacando um punhal um deles
começou a correr desesperadamente em círculos enquanto os outros dois ainda estavam
desorientados. Sua intenção era me apunhalar - era fácil sentir seu objetivo
com a cobertura das nevoas sobre o local. Uma grande bolha com mais de vinte
metros de diâmetro.
Não muito tempo se passou e o
mais novo já estava morto. Apunhalado pelas costas por seu parceiro enquanto
cumpria uma missão.
Logo, o mais velho sacou a espada
e gritou um encantamento de paralisia.
- Homeostah Phiridit.
Deveria ter encantado a espada
para que quando me tocasse causasse a sensação de imobilidade. No entanto, seu
golpe acertou de raspão o outro soldado, que logo correra com o punhal a lhe
atacar. O feitiço funcionou a tempo de evitar um golpe mortal. Sorrindo o homem
da espada ele disse:
- Nossa mestra ficara muito grata
ao lhe entregarmos sua cabeça, Sarah.
Sim. Ele se recordara meu nome.
Eu observava da porta toda a ação
dos campeões que aos poucos se matavam. Estava encantada com o vasto poder que
havia adquirido nos últimos cinco anos. Mal conseguia conter a alegria, estava
eufórica e satisfeita com meu desempenho, pois, não precisei fazer nenhum
movimento para finalizar a batalha.
Vi os olhos de pavor do homem, o
que portava o punhal, ao ouvir o que seu amigo dizia. Claro que devia ter
desconfiado que algo estivesse errado, pois era ele que estava paralisado.
Erguendo sua espada deu o ultimo
golpe em seu amigo que caiu aos seus pés.
Finalmente pode e ver. Restava
apenas um bruxo.
- Como pode ainda estar viva?
Vi-te levar uma punhalada pelas costas, agora a pouco a decapitei com a espada
e mesmo assim estais a andar?
Comecei a sentir-me bem com tudo
aquilo. As Névoas davam uma sensação de superioridade. Mas o que mais me satisfazia
eram suas expressões de pavor antes da morte.
Eu imaginava como seria ser
sucumbida pelas ilusões. Os meus amigos, antes de serem obliterados, compreenderiam,
de fato, o que estava acontecendo e o nível de pavor estender-se-ia a elevados
picos. As emoções neste momento estariam a flor da pele.
Finalmente o soldado compreendia
o que se passava, porem estava impotente contra a situação. O bruxo não teve
opção a não ser erguer pela última vez sua espada, à altura do pescoço, e
lentamente tirar sua a própria vida.
Com as Névoas eu poderia
sintonizar minha mente a de meus inimigos e lhes ordenar o que bem entendesse,
era um poder surpreendente.
O ultimo dos bruxos enviados por
Leone, o mesmo que me escoltou na mansão, agora caia em minha frente como um
coelho a dar seu ultimo suspiro sob as patas de um lobo.
Encerrava-se a peleja contra três
dos magos mais poderosos da terceira elite da Legião Wagner. Entendi que estava
preparada para algo maior. O que eu havia feito com esses bruxos poderia ser
facilmente aplicado a vinte ou trinta pessoas. Minhas chances de vitória eram
verdadeiramente altas e os homens desfalecidos a minha frente eram provas disso
Mesmo sendo inimigos ainda eram
humanos e mereciam um funeral digno. Arrastei seus corpos, um a um, até a beira
do lago que existia próximo a casa e os precipitei nas águas correntes. Alguém
os encontraria mais abaixo e certamente levariam os cadáveres para suas
famílias que os enterrariam com a honra que mereciam.
Nenhum comentário:
Postar um comentário