sábado, 30 de novembro de 2013


3° Capítulo

Visitas

Três anos se passaram enquanto eu estudava a teorias das nevoas. Li e reli várias vezes cada trecho do Grimório deixado de herança pela velha bruxa. Estava certa de que com aquele conhecimento minha vingança seria definida com a vitória.

Eu tinha um plano.

Certo dia, quando eu andava pelas feiras de Rousack ouvi dizer que em San-Dellot aconteciam encontros de magos e bruxos que duelavam em batalhas físicas e espirituais em função do bom nome das legiões a quem pertenciam. Era óbvio que essas batalhas aconteciam a mando dos próprios mestres, Lordes ricos, que queriam marcar território demonstrando o poderio de sua Casa.


Esses campeões carregavam as bandeiras de seus mestres - coisa que eu nunca mais faria em minha vida. Na verdade o que me chamou a atenção foi um grupo que se intitulavam os “Granins”, magos sem mestres. Talvez compartilhassem dos meus motivos. Identifiquei-me com esses renegados.

Foi aí que tive a brilhante idéia de recrutá-los. Tudo o que queriam era apenas a oportunidade de vingança contra os mestres que os renegaram e os expulsaram de suas legiões - E eu os daria essa oportunidade.
  
Quando lhes contei minha idéia tudo que ouvi foram risos. Não acreditavam em mim, diziam que era um plano suicida. Alguns até se interessaram, mas desconfiavam de meu poder de liderança, afinal de contas eu sou uma mulher. E mulheres são feitas apenas para o gozo dos homens.


- Se resolverem mudar de idéia me procure.

O homem riu e perguntou-me:
- E quem é você?

- A Bruxa das Névoas – Um breve silencio tomou conta do ambiente enquanto eu me retirava.

 No mesmo dia, após algum tempo, algo acontecera para abrilhantar minha imagem. Percebi a presença de três homens que entravam no bosque. As nevoas me davam esse poder, tudo o acontecia naquela floresta estava intrinsecamente ligado a mim.
Tempos antes, segundo os relatos da Velha Bruxa, os Wagener enviaram soldados numa tentativa frustrada de convencê-la a unir forças com a Legião.

 Acho que a historia se repetia e desta vez eu era a protagonista.

Leoni não perdia tempo, sempre tentando alienar personalidades poderosas a fim de recrutá-los para sua elite. Queria conhecer a Bruxa das Névoas pessoalmente.

Toc, toc, toc - Já estava à porta quando os homens resolveram batê-la.

- Bruxa das Nevoas, temos uma proposta para lhe fazer, se puderes sair à luz ficaremos gratos - Dizia um deles com voz tremula.

- Viemos em paz - Outra voz ao lado se manifestava.

Paz? Quando se tratava de Leoni, as conversas não eram brandas.

Corri até o quarto e peguei um casaco velho de pano, me vesti e cobri-me o rosto com o capuz. Abri a porta vagarosamente para aumentar a tensão dos campeões.

Tremiam. Estavam apavorados.

- Nossa mestra deseja vê-la! – disse um dos homens.

- Em que nome vocês vieram?

- Le... Le... Leoni. Membro do conselho dos bruxos e líder da legião Wagener – O mais novo tomava a palavra.

Reconheci os três assim que os vi. Pertenciam a terceira elite de bruxos. Um deles estava no último dia em que vi Leoni. Ele era um dos guardiões que me escoltou até o saguão da mansão.

- Qual seria essa proposta que os fizeram entrar em meus domínios? - Modifiquei a voz na intenção de deixar o clima tenso. E deu certo.

- Viemos lhe ofertar a entrada na maior Legião de Magos da história desse mundo, Senhora!

- E o que os faz pensar que eu aceitaria me juntar a vocês? Sabem muito bem que eu sou a Bruxa das Nevoas, solitária. Na verdade digo ainda mais, são muito corajosos em estar aqui.

Um deles, justamente o que me escoltara em tempos passados, me olhava atentamente. Acho que desconfiara de algo.

- Conheço essa voz! Você estava na mansão - Foi logo dizendo o delator. Os olhos se tornaram latentes e as pupilas se dilataram. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto.

Nesse momento, quando me reconheceu, assinou sua sentença de morte. Se algum deles escapasse dali certamente traria reforços numa tentativa de captura à minha pessoa.

Os mercenários posicionaram-se em minha frente indicando que uma batalha estava para começar. Deixei que capuz deslizasse sobre minha cabeça revelando meu rosto. Espantaram-se.

Dizia um com o outro:

- Sua pele está branca, seus lábios sem vida e os olhos avermelhados.

A tempos que não me olhava no espelho, poderia ser que minha face realmente tivesse envelhecida ou de aparência abatida.

- Odeio visitas inesperadas. São muito audaciosos. Vocês entram em meu bosque, perturbam minha paz e me repelem como se eu fosse um monstro. Se realmente me vêem dessa forma, lhes mostrarei o monstro a que me tornei.

Dito isso me elevei ao estado de Efatar e iniciei a caçada. As Nevoas se alastraram ao nosso redor. Como animais assustados, não por me verem e sim pelas nevoas que aos meus pés se faziam, começaram um ataque repentino.

Mal sabiam eles que já estavam sob meu encantamento. Os homens encontravam-se perdidos na mais profunda ilusão de seu subconsciente.

Uma oportunidade rara. Testar meus novos poderem em humanos, ou melhor dizendo, em bruxos de elite. Estava certa de que minha vitoria era garantida.

Sacando um punhal um deles começou a correr desesperadamente em círculos enquanto os outros dois ainda estavam desorientados. Sua intenção era me apunhalar - era fácil sentir seu objetivo com a cobertura das nevoas sobre o local. Uma grande bolha com mais de vinte metros de diâmetro.

Não muito tempo se passou e o mais novo já estava morto. Apunhalado pelas costas por seu parceiro enquanto cumpria uma missão.

Logo, o mais velho sacou a espada e gritou um encantamento de paralisia.

- Homeostah Phiridit.

Deveria ter encantado a espada para que quando me tocasse causasse a sensação de imobilidade. No entanto, seu golpe acertou de raspão o outro soldado, que logo correra com o punhal a lhe atacar. O feitiço funcionou a tempo de evitar um golpe mortal. Sorrindo o homem da espada ele disse:

- Nossa mestra ficara muito grata ao lhe entregarmos sua cabeça, Sarah.

Sim. Ele se recordara meu nome.

Eu observava da porta toda a ação dos campeões que aos poucos se matavam. Estava encantada com o vasto poder que havia adquirido nos últimos cinco anos. Mal conseguia conter a alegria, estava eufórica e satisfeita com meu desempenho, pois, não precisei fazer nenhum movimento para finalizar a batalha.

Vi os olhos de pavor do homem, o que portava o punhal, ao ouvir o que seu amigo dizia. Claro que devia ter desconfiado que algo estivesse errado, pois era ele que estava paralisado.

Erguendo sua espada deu o ultimo golpe em seu amigo que caiu aos seus pés.

Finalmente pode e ver. Restava apenas um bruxo.

- Como pode ainda estar viva? Vi-te levar uma punhalada pelas costas, agora a pouco a decapitei com a espada e mesmo assim estais a andar?

Comecei a sentir-me bem com tudo aquilo. As Névoas davam uma sensação de superioridade. Mas o que mais me satisfazia eram suas expressões de pavor antes da morte.
Eu imaginava como seria ser sucumbida pelas ilusões. Os meus amigos, antes de serem obliterados, compreenderiam, de fato, o que estava acontecendo e o nível de pavor estender-se-ia a elevados picos. As emoções neste momento estariam a flor da pele.

Finalmente o soldado compreendia o que se passava, porem estava impotente contra a situação. O bruxo não teve opção a não ser erguer pela última vez sua espada, à altura do pescoço, e lentamente tirar sua a própria vida.

Com as Névoas eu poderia sintonizar minha mente a de meus inimigos e lhes ordenar o que bem entendesse, era um poder surpreendente.

O ultimo dos bruxos enviados por Leone, o mesmo que me escoltou na mansão, agora caia em minha frente como um coelho a dar seu ultimo suspiro sob as patas de um lobo.
Encerrava-se a peleja contra três dos magos mais poderosos da terceira elite da Legião Wagner. Entendi que estava preparada para algo maior. O que eu havia feito com esses bruxos poderia ser facilmente aplicado a vinte ou trinta pessoas. Minhas chances de vitória eram verdadeiramente altas e os homens desfalecidos a minha frente eram provas disso

Mesmo sendo inimigos ainda eram humanos e mereciam um funeral digno. Arrastei seus corpos, um a um, até a beira do lago que existia próximo a casa e os precipitei nas águas correntes. Alguém os encontraria mais abaixo e certamente levariam os cadáveres para suas famílias que os enterrariam com a honra que mereciam.


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