2º Capítulo
Névoas
Quando cheguei a esse bosque, na
parte mais densa da floresta, notei que havia uma casinha, aparentemente
desgastada pelo tempo, toda feita em madeiras e restos de matéria prima
fornecida pela própria floresta.
Apesar do ar fantasmagórico que o
bosque apresentava, era na verdade um lugar aconchegante e fraternal. Pelo
menos para mim. No caminho, me sentia bem à vontade com as camadas densas de
nevoa, parecia-me que já estava em casa.
Não fui eu quem fez a fama do
bosque como muitos pensavam.
Tempos antes uma senhora de
personalidade peculiar já morava ali. Suas coisas ainda permaneciam na casa que
perdurou ali durante tempos até que alguém pudesse, cuidadosamente, achá-la e
desvendá-las.
Praticamente toda a comunidade, desde bruxos a cidadãos considerados normais, demonstrava grande receio pelo bosque. Diziam que era assombrado.
Mas como dizem - O que é seu
sempre virá a você - E que coincidência, se é que isso existe. A dona da casa
era uma bruxa. A casa estava abandonada e por esse motivo apropriei-me dela e
passei a ter aquele chalé como minha residência.
A casa era cheia de mistérios, ruídos e variações de temperatura. Tecidos velhos e maltrapilhos faziam parte da decoração. Hora o vento batia na janela e levantava as cortinas rasgadas dando a impressão de movimentação na casa. Encontrei um compartimento nos fundos, um porão, onde ela guardava seus bens mais valiosos.
Ao vasculhar seus pertences encontrei um livro. Parecia-me ser seu livro de anotações de estudos, o grimório da bruxa das nevoas, como a chamavam.
Não sou
ingênua, se é que me entendem... Comecei imediatamente a estudá-lo, pois aquilo
me parecia uma grande oportunidade. Imaginem poder desfrutar dos conhecimentos
daquela bruxa, muito conhecida na região, temida por todos. O que ela poderia
me ensinar? Era isso que eu pretendia saber.
Noite após noite me dediquei aos estudos da Velha do Bosque,
aprofundando-me em suas magias, fantásticas, tornando-me ainda mais forte.
Assumi sua posição de bruxa das nevoas, só que agora mais nova e revigorada,
muito mais poderosa, pois havia mesclado meus estudos aos da antiga moradora da
casa.
Detentora de muito conhecimento,
cada página que eu folheava era um universo de descobertas que fazia. Adoraria
tê-la conhecido pessoalmente.
De tudo que li naquele livro, de larga
espessura, houve uma coisa que me encantou. Várias páginas descreviam as
Névoas, a magia que caracterizava seu nome, e esse conhecimento, acima de tudo,
me deixava em intrigada.
Poderia ler e reler esses documentos sem parar, cada
parágrafo sugeria uma modulação da magia das nevoas. Assemelhava-se a poesias.
Um relato de uma Bruxa das Névoas que talvez tenha encontrado a verdadeira
forma de ver.
“As nevoas deste
bosque me mostraram o outro lado do véu, pude ver com clareza o que meus olhos
nunca viram mesmo com muito esforço, me apaixonei pelo poder das ilusões que
ela me proporcionava”.
Achei que
aquele conhecimento, aquela nova magia, me seria útil quando eu, finalmente,
retornasse e cumprisse meu propósito de destruir a família Wagener. As névoas
eram meu trunfo já que eles nunca contariam com tais magias ilusórias.
“Uma vez aqui dentro,
qualquer vida se torna rapidamente frágil. Vêem-se as agonias e torturas causadas
pelos seus próprios medos. Logo um sofrimento adequado àqueles que nos traíram
e nos buscaram para morrer na forca”
Provavelmente
minha mestra tivera também seus momentos de fúria e acabou ficando óbvio que
ela acabou sendo mais uma vitima da inquisição. Estava fascinada com tudo que
li sobre seus relatos de vida, seus demônios. Fiquei entusiasmada com a
possibilidade de dominar aquela técnica e obliterar meus inimigos. Eu não
morreria igual ela.
“Dela se exige a amizade e a cumplicidade, mesmo que seus olhos se
fechem sua mente ainda estará a funcionar, então ela agirá de forma cautelosa
lhe mostrando a realidade do momento que se ocorre durante o tempo real”.
Aos poucos comecei a entender o
que ela queria dizer com suas frases sem sentido. O bosque trazia consigo um
amontoado de segredos naturais e espirituais, mas pouco entendido pelos
humanos.
“Dos sonhos se mostram
realidades que ainda não se foram, e enigmáticos confrontos íntimos podem te
corroer. Por isso, siga sua intuição e na duvida, pare e espere”.
Uma bruxa
louca, num lugar como esse. Não me admiro se eu também enlouquecer, apesar de
já me considerar uma insana apenas por ter desafiado uma das mais importantes
famílias de bruxos.
“A loucura se
manifesta de forma rotineira, se é que os loucos é quem são sensatos por ver o
que os olhos não vêem, posso lhes afirma que você só encontrara a razão se
ficar louco”.
Eram palavras desafiadoras, mas
que faziam sentido.
“Das nevoas se vêem a verdade. A realidade de ilusões que levam o
usuário a uma vitoria eminente, conseqüência deste conhecimento”.
Ao terminar de ler essa frase me
recordei de algo que ouvi algum tempo atrás. Certa vez, um grande bruxo que
andava nas redondezas deste bosque resolveu se adentrar para falar com a bruxa
das nevoas. Na intenção de recrutar os mais poderosos homens, persuadiria a
velha bruxa a fazer pare da legião Wagener. Porem, nem tudo saiu como o
esperado. Alguns dias depois, quinze para ser mais exata, chegou a notícia de
que o nosso guerreiro havia sido encontrado nas beiras de um córrego um pouco
abaixo do temido bosque. Sua pele branca, sem sangue e o corpo todo retalhado
por facas ou algo parecido. Lembro-me das expressões que vi no momento em que a
notícia foi revelada. Era um encontro da Legião que acontecia uma vez por mês
na mansão Wagener.
Lembro-me também de me indagado
naquele momento - Por que a própria Leoni não vai ao bosque já que ela é tão
poderosa quanto dizem? - Certamente ela deveria temer a bruxa das nevoas. Eu
ainda não sabia por que.
Mas hoje, constatei a verdade que
eu tanto queria saber naquele dia. A velha Leoni tinha a Bruxa das Névoas como
sua inimiga e, de tantas formas, tentou persuadi-la a se juntar a legião. O
problema é que os batedores sempre voltavam mortos para a casa.
Entendi que se tratava de um
grande encantamento disfarçado de frases complexas. O conhecimento das Névoas das ilusões agora estava em
minhas mãos e, certamente, seria usado em meu benefício e contra todos os
Wagener.
Mesmo assim, com todo aquele
conhecimento, tinha uma coisa ainda não me saia da mente. Um sentimento de
derrota. Por mais que eu fosse detentora do mais poderoso artefato de guerra
mítica que os bruxos jamais viram, ainda me preocupava com aquele garoto
chamado Lucius. Sentia que ele seria um empecilho na concretização dos meus
planos.
Eu tinha que matá-lo.
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