segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

4° Capítulo

Recrutados


Em pouco tempo a fama da Bruxa das Névoas se alastrou por toda a região. Diziam que seu espírito retornara e estava inquieto. Ignorantes, pensavam que a bruxa era eterna. Nada é eterno neste mundo, enquanto o tempo existir tudo esta sujeito a seu poder.

Deveria ir à cidade para comprar mantimentos. Coloquei meu vestido e peguei minha carroça.

A cidade estava agitada. San Dellot era famosa por ser palco de uma transação comercial fluente o ano todo. Havia de tudo, desde comida, cavalos até mercenários. Era possível contratar os melhores a um custo relativamente baixo.

- Mulher – Disse uma voz grossa – Ainda pretende recrutar soldados?

Era o mesmo homem que gargalhou de minha suposta insanidade.
- Ouvi seu grande feito. Ficamos maravilhados com seu poder – Todos estavam comentando sobre o retorno da Bruxa das Névoas.

A família Wagener colocara minha cabeça, ou melhor, da bruxa das Névoas, a prêmio. Em qualquer vila vizinha, neste momento eu estaria sendo caçada por Lordes, bruxos e camponeses. Mas em San Dellot as coisas eram diferentes. Lá os renegados tomavam conta, eram a maioria. Era um lugar perfeito para formar um exército.

- Sim. E qual seria o seu nome? – perguntei.

- Eu me chamo Antoni. Sou Grannin da família Piazzo – Piazzo era o sobrenome de Morgana. Bruxa tão influente e poderosa quanto Leoni.

- Atoni – Lancei os olhos para cima analisando seu nome - Preciso de soldados para executar meu plano e acabar logo com esta corja de Lordes que nos manipulam – O poderio de uma família não estava apenas na quantidade de soldados que às pertenciam, também tinha a questão do poder aquisitivo. Quanto mais ricas fossem, mais poderes e alianças estas poderiam ter. Infelizmente os Wagener eram podres de ricos.

- Sim, você está certa Bruxa das Névoas – Dizia outra voz. E logo um montante de pessoas começou a se propor soldado da Bruxa das Névoas - Um exército de Grannins – pensei.

- Um futuro cravado na linha do destino, minha senhora, é o que vejo – Um elemento conturbado entrou na conversa com frases sem nexo. Fora do contexto do que estava sendo tratado.

- E quem é o senhor? – Perguntei a ele.

- Seu destino está entrelaçado com o menino de olhos azuis – se referia a Lucius – Mas não acredito que irá matá-lo – finalizava.

- Quem é você para dizer isso? – Me exaltei com o homem que tinha uma energia sinistra e incômoda. Era de aparência esquisita. Seu queixo alongado e os olhos negros contrastavam com um nariz pontiagudo e seu bigode. Aquele chapéu, do tipo cartola, combinava com a roupa colorida que usava. Assemelhava-se a um palhaço ou Bobo-da-Corte.

- Ora Sarah, a pergunta deveria ser: Quem é você? – Como sabia meu nome? Estava usando o codenome de minha mestra.

- A sua façanha será lembrada. Guie o jovem rapaz até completar a missão e salvara a sua espécie. Olhe com atenção – O homem estranho se retirou e, com o dedo, apontou em direção ao portão da cidade. Era ele. Lucius e uma menina andavam só pela cidade de San Dellot.

Estava chocada, primeiro com o homem esquisito que sabia meu nome e meus tormentos. Depois porque Lucius estava em minha frente. Fiquei paralisada durante algum tempo tentando entender o que acontecia.

- Tenho de matá-lo agora. Aproveitar que está sozinho e indefeso.

Empurrei o senhor e, trombando em quem estava em meu caminho, andei em direção a ele. À medida que eu me aproximava meu corpo começara a se encher de energia. Minha pele ardia feito fogo e minha respiração ofegante me tomou a racionalidade. Era um predador prestes a atacar sua presa.

Já estava a uns dez metros dele quando uma charrete preta interceptou-os. Dela saíram oito soldados que os cercaram. Eram bruxos leais aos Wageners e provavelmente da primeira elite.

Parei ali mesmo. Apesar de ter as Névoas a meu favor, me sentia fraca. Não me alimentava á alguns dias.

- Quer que os enfrentemos, senhora? – Antoni estava com seu porrete em mãos e atrás dele, pelo menos cinco Grannins. Fiquei em silêncio. Apesar de serem Grannins de famílias poderosas, os bruxos que estavam ali era da primeira elite de Leoni.

O menino olhava para os guardas e dizia alguma coisa gesticulando. Percebi que repentinamente baixou a cabeça. Por debaixo da charrete era possível ver um sapado negro que se encostava ao chão. Era Leoni quem descia.

- Devemos? – Insistiu Antoni.


- Absolutamente, não – Vamos embora.

sábado, 30 de novembro de 2013


3° Capítulo

Visitas

Três anos se passaram enquanto eu estudava a teorias das nevoas. Li e reli várias vezes cada trecho do Grimório deixado de herança pela velha bruxa. Estava certa de que com aquele conhecimento minha vingança seria definida com a vitória.

Eu tinha um plano.

Certo dia, quando eu andava pelas feiras de Rousack ouvi dizer que em San-Dellot aconteciam encontros de magos e bruxos que duelavam em batalhas físicas e espirituais em função do bom nome das legiões a quem pertenciam. Era óbvio que essas batalhas aconteciam a mando dos próprios mestres, Lordes ricos, que queriam marcar território demonstrando o poderio de sua Casa.


Esses campeões carregavam as bandeiras de seus mestres - coisa que eu nunca mais faria em minha vida. Na verdade o que me chamou a atenção foi um grupo que se intitulavam os “Granins”, magos sem mestres. Talvez compartilhassem dos meus motivos. Identifiquei-me com esses renegados.

Foi aí que tive a brilhante idéia de recrutá-los. Tudo o que queriam era apenas a oportunidade de vingança contra os mestres que os renegaram e os expulsaram de suas legiões - E eu os daria essa oportunidade.
  
Quando lhes contei minha idéia tudo que ouvi foram risos. Não acreditavam em mim, diziam que era um plano suicida. Alguns até se interessaram, mas desconfiavam de meu poder de liderança, afinal de contas eu sou uma mulher. E mulheres são feitas apenas para o gozo dos homens.


- Se resolverem mudar de idéia me procure.

O homem riu e perguntou-me:
- E quem é você?

- A Bruxa das Névoas – Um breve silencio tomou conta do ambiente enquanto eu me retirava.

 No mesmo dia, após algum tempo, algo acontecera para abrilhantar minha imagem. Percebi a presença de três homens que entravam no bosque. As nevoas me davam esse poder, tudo o acontecia naquela floresta estava intrinsecamente ligado a mim.
Tempos antes, segundo os relatos da Velha Bruxa, os Wagener enviaram soldados numa tentativa frustrada de convencê-la a unir forças com a Legião.

 Acho que a historia se repetia e desta vez eu era a protagonista.

Leoni não perdia tempo, sempre tentando alienar personalidades poderosas a fim de recrutá-los para sua elite. Queria conhecer a Bruxa das Névoas pessoalmente.

Toc, toc, toc - Já estava à porta quando os homens resolveram batê-la.

- Bruxa das Nevoas, temos uma proposta para lhe fazer, se puderes sair à luz ficaremos gratos - Dizia um deles com voz tremula.

- Viemos em paz - Outra voz ao lado se manifestava.

Paz? Quando se tratava de Leoni, as conversas não eram brandas.

Corri até o quarto e peguei um casaco velho de pano, me vesti e cobri-me o rosto com o capuz. Abri a porta vagarosamente para aumentar a tensão dos campeões.

Tremiam. Estavam apavorados.

- Nossa mestra deseja vê-la! – disse um dos homens.

- Em que nome vocês vieram?

- Le... Le... Leoni. Membro do conselho dos bruxos e líder da legião Wagener – O mais novo tomava a palavra.

Reconheci os três assim que os vi. Pertenciam a terceira elite de bruxos. Um deles estava no último dia em que vi Leoni. Ele era um dos guardiões que me escoltou até o saguão da mansão.

- Qual seria essa proposta que os fizeram entrar em meus domínios? - Modifiquei a voz na intenção de deixar o clima tenso. E deu certo.

- Viemos lhe ofertar a entrada na maior Legião de Magos da história desse mundo, Senhora!

- E o que os faz pensar que eu aceitaria me juntar a vocês? Sabem muito bem que eu sou a Bruxa das Nevoas, solitária. Na verdade digo ainda mais, são muito corajosos em estar aqui.

Um deles, justamente o que me escoltara em tempos passados, me olhava atentamente. Acho que desconfiara de algo.

- Conheço essa voz! Você estava na mansão - Foi logo dizendo o delator. Os olhos se tornaram latentes e as pupilas se dilataram. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto.

Nesse momento, quando me reconheceu, assinou sua sentença de morte. Se algum deles escapasse dali certamente traria reforços numa tentativa de captura à minha pessoa.

Os mercenários posicionaram-se em minha frente indicando que uma batalha estava para começar. Deixei que capuz deslizasse sobre minha cabeça revelando meu rosto. Espantaram-se.

Dizia um com o outro:

- Sua pele está branca, seus lábios sem vida e os olhos avermelhados.

A tempos que não me olhava no espelho, poderia ser que minha face realmente tivesse envelhecida ou de aparência abatida.

- Odeio visitas inesperadas. São muito audaciosos. Vocês entram em meu bosque, perturbam minha paz e me repelem como se eu fosse um monstro. Se realmente me vêem dessa forma, lhes mostrarei o monstro a que me tornei.

Dito isso me elevei ao estado de Efatar e iniciei a caçada. As Nevoas se alastraram ao nosso redor. Como animais assustados, não por me verem e sim pelas nevoas que aos meus pés se faziam, começaram um ataque repentino.

Mal sabiam eles que já estavam sob meu encantamento. Os homens encontravam-se perdidos na mais profunda ilusão de seu subconsciente.

Uma oportunidade rara. Testar meus novos poderem em humanos, ou melhor dizendo, em bruxos de elite. Estava certa de que minha vitoria era garantida.

Sacando um punhal um deles começou a correr desesperadamente em círculos enquanto os outros dois ainda estavam desorientados. Sua intenção era me apunhalar - era fácil sentir seu objetivo com a cobertura das nevoas sobre o local. Uma grande bolha com mais de vinte metros de diâmetro.

Não muito tempo se passou e o mais novo já estava morto. Apunhalado pelas costas por seu parceiro enquanto cumpria uma missão.

Logo, o mais velho sacou a espada e gritou um encantamento de paralisia.

- Homeostah Phiridit.

Deveria ter encantado a espada para que quando me tocasse causasse a sensação de imobilidade. No entanto, seu golpe acertou de raspão o outro soldado, que logo correra com o punhal a lhe atacar. O feitiço funcionou a tempo de evitar um golpe mortal. Sorrindo o homem da espada ele disse:

- Nossa mestra ficara muito grata ao lhe entregarmos sua cabeça, Sarah.

Sim. Ele se recordara meu nome.

Eu observava da porta toda a ação dos campeões que aos poucos se matavam. Estava encantada com o vasto poder que havia adquirido nos últimos cinco anos. Mal conseguia conter a alegria, estava eufórica e satisfeita com meu desempenho, pois, não precisei fazer nenhum movimento para finalizar a batalha.

Vi os olhos de pavor do homem, o que portava o punhal, ao ouvir o que seu amigo dizia. Claro que devia ter desconfiado que algo estivesse errado, pois era ele que estava paralisado.

Erguendo sua espada deu o ultimo golpe em seu amigo que caiu aos seus pés.

Finalmente pode e ver. Restava apenas um bruxo.

- Como pode ainda estar viva? Vi-te levar uma punhalada pelas costas, agora a pouco a decapitei com a espada e mesmo assim estais a andar?

Comecei a sentir-me bem com tudo aquilo. As Névoas davam uma sensação de superioridade. Mas o que mais me satisfazia eram suas expressões de pavor antes da morte.
Eu imaginava como seria ser sucumbida pelas ilusões. Os meus amigos, antes de serem obliterados, compreenderiam, de fato, o que estava acontecendo e o nível de pavor estender-se-ia a elevados picos. As emoções neste momento estariam a flor da pele.

Finalmente o soldado compreendia o que se passava, porem estava impotente contra a situação. O bruxo não teve opção a não ser erguer pela última vez sua espada, à altura do pescoço, e lentamente tirar sua a própria vida.

Com as Névoas eu poderia sintonizar minha mente a de meus inimigos e lhes ordenar o que bem entendesse, era um poder surpreendente.

O ultimo dos bruxos enviados por Leone, o mesmo que me escoltou na mansão, agora caia em minha frente como um coelho a dar seu ultimo suspiro sob as patas de um lobo.
Encerrava-se a peleja contra três dos magos mais poderosos da terceira elite da Legião Wagner. Entendi que estava preparada para algo maior. O que eu havia feito com esses bruxos poderia ser facilmente aplicado a vinte ou trinta pessoas. Minhas chances de vitória eram verdadeiramente altas e os homens desfalecidos a minha frente eram provas disso

Mesmo sendo inimigos ainda eram humanos e mereciam um funeral digno. Arrastei seus corpos, um a um, até a beira do lago que existia próximo a casa e os precipitei nas águas correntes. Alguém os encontraria mais abaixo e certamente levariam os cadáveres para suas famílias que os enterrariam com a honra que mereciam.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

2º Capítulo

Névoas



Quando cheguei a esse bosque, na parte mais densa da floresta, notei que havia uma casinha, aparentemente desgastada pelo tempo, toda feita em madeiras e restos de matéria prima fornecida pela própria floresta.

Apesar do ar fantasmagórico que o bosque apresentava, era na verdade um lugar aconchegante e fraternal. Pelo menos para mim. No caminho, me sentia bem à vontade com as camadas densas de nevoa, parecia-me que já estava em casa.

Não fui eu quem fez a fama do bosque como muitos pensavam.

Tempos antes uma senhora de personalidade peculiar já morava ali. Suas coisas ainda permaneciam na casa que perdurou ali durante tempos até que alguém pudesse, cuidadosamente, achá-la e desvendá-las.

Praticamente toda a comunidade, desde bruxos a cidadãos considerados normais, demonstrava grande receio pelo bosque. Diziam que era assombrado.

Mas como dizem - O que é seu sempre virá a você - E que coincidência, se é que isso existe. A dona da casa era uma bruxa. A casa estava abandonada e por esse motivo apropriei-me dela e passei a ter aquele chalé como minha residência.

A casa era cheia de mistérios, ruídos e variações de temperatura. Tecidos velhos e maltrapilhos faziam parte da decoração. Hora o vento batia na janela e levantava as cortinas rasgadas dando a impressão de movimentação na casa. Encontrei um compartimento nos fundos, um porão, onde ela guardava seus bens mais valiosos.

Ao vasculhar seus pertences encontrei um livro. Parecia-me ser seu livro de anotações de estudos, o grimório da bruxa das nevoas, como a chamavam.

            Não sou ingênua, se é que me entendem... Comecei imediatamente a estudá-lo, pois aquilo me parecia uma grande oportunidade. Imaginem poder desfrutar dos conhecimentos daquela bruxa, muito conhecida na região, temida por todos. O que ela poderia me ensinar? Era isso que eu pretendia saber.

            Noite após noite me dediquei aos estudos da Velha do Bosque, aprofundando-me em suas magias, fantásticas, tornando-me ainda mais forte. Assumi sua posição de bruxa das nevoas, só que agora mais nova e revigorada, muito mais poderosa, pois havia mesclado meus estudos aos da antiga moradora da casa.
           
Detentora de muito conhecimento, cada página que eu folheava era um universo de descobertas que fazia. Adoraria tê-la conhecido pessoalmente.

De tudo que li naquele livro, de larga espessura, houve uma coisa que me encantou. Várias páginas descreviam as Névoas, a magia que caracterizava seu nome, e esse conhecimento, acima de tudo, me deixava em intrigada.

           Poderia ler e reler esses documentos sem parar, cada parágrafo sugeria uma modulação da magia das nevoas. Assemelhava-se a poesias. Um relato de uma Bruxa das Névoas que talvez tenha encontrado a verdadeira forma de ver.

“As nevoas deste bosque me mostraram o outro lado do véu, pude ver com clareza o que meus olhos nunca viram mesmo com muito esforço, me apaixonei pelo poder das ilusões que ela me proporcionava”.

            Achei que aquele conhecimento, aquela nova magia, me seria útil quando eu, finalmente, retornasse e cumprisse meu propósito de destruir a família Wagener. As névoas eram meu trunfo já que eles nunca contariam com tais magias ilusórias.  

“Uma vez aqui dentro, qualquer vida se torna rapidamente frágil. Vêem-se as agonias e torturas causadas pelos seus próprios medos. Logo um sofrimento adequado àqueles que nos traíram e nos buscaram para morrer na forca”

            Provavelmente minha mestra tivera também seus momentos de fúria e acabou ficando óbvio que ela acabou sendo mais uma vitima da inquisição. Estava fascinada com tudo que li sobre seus relatos de vida, seus demônios. Fiquei entusiasmada com a possibilidade de dominar aquela técnica e obliterar meus inimigos. Eu não morreria igual ela.

 “Dela se exige a amizade e a cumplicidade, mesmo que seus olhos se fechem sua mente ainda estará a funcionar, então ela agirá de forma cautelosa lhe mostrando a realidade do momento que se ocorre durante o tempo real”.

Aos poucos comecei a entender o que ela queria dizer com suas frases sem sentido. O bosque trazia consigo um amontoado de segredos naturais e espirituais, mas pouco entendido pelos humanos.

“Dos sonhos se mostram realidades que ainda não se foram, e enigmáticos confrontos íntimos podem te corroer. Por isso, siga sua intuição e na duvida, pare e espere”.

            Uma bruxa louca, num lugar como esse. Não me admiro se eu também enlouquecer, apesar de já me considerar uma insana apenas por ter desafiado uma das mais importantes famílias de bruxos.

“A loucura se manifesta de forma rotineira, se é que os loucos é quem são sensatos por ver o que os olhos não vêem, posso lhes afirma que você só encontrara a razão se ficar louco”.

Eram palavras desafiadoras, mas que faziam sentido.

“Das nevoas se vêem a verdade. A realidade de ilusões que levam o usuário a uma vitoria eminente, conseqüência deste conhecimento”.


Ao terminar de ler essa frase me recordei de algo que ouvi algum tempo atrás. Certa vez, um grande bruxo que andava nas redondezas deste bosque resolveu se adentrar para falar com a bruxa das nevoas. Na intenção de recrutar os mais poderosos homens, persuadiria a velha bruxa a fazer pare da legião Wagener. Porem, nem tudo saiu como o esperado. Alguns dias depois, quinze para ser mais exata, chegou a notícia de que o nosso guerreiro havia sido encontrado nas beiras de um córrego um pouco abaixo do temido bosque. Sua pele branca, sem sangue e o corpo todo retalhado por facas ou algo parecido. Lembro-me das expressões que vi no momento em que a notícia foi revelada. Era um encontro da Legião que acontecia uma vez por mês na mansão Wagener.

Lembro-me também de me indagado naquele momento - Por que a própria Leoni não vai ao bosque já que ela é tão poderosa quanto dizem? - Certamente ela deveria temer a bruxa das nevoas. Eu ainda não sabia por que.

Mas hoje, constatei a verdade que eu tanto queria saber naquele dia. A velha Leoni tinha a Bruxa das Névoas como sua inimiga e, de tantas formas, tentou persuadi-la a se juntar a legião. O problema é que os batedores sempre voltavam mortos para a casa.  

Entendi que se tratava de um grande encantamento disfarçado de frases complexas. O conhecimento das Névoas das ilusões agora estava em minhas mãos e, certamente, seria usado em meu benefício e contra todos os Wagener.

Mesmo assim, com todo aquele conhecimento, tinha uma coisa ainda não me saia da mente. Um sentimento de derrota. Por mais que eu fosse detentora do mais poderoso artefato de guerra mítica que os bruxos jamais viram, ainda me preocupava com aquele garoto chamado Lucius. Sentia que ele seria um empecilho na concretização dos meus planos.

Eu tinha que matá-lo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

1º Capítulo
O Bosque Nebuloso


Meu bosque sempre foi muito tranqüilo. Digo “meu” por apenas minha alma vagar por ele a maior parte do tempo. A solidão sempre me acompanhou desde que fui expulsa da legião por praticar a magia negra. Embora para mim, apenas mais estudo bem elaborado que fiz em minha vida de pesquisas na alquimia.

Eu era uma estudante de bruxaria fiel à família Wagener. Modéstia a parte, fui uma das melhores alunas da escola. Era a preferida de Leoni.


Já havia completado 16 anos quando resolvi iniciar-me no estudo terrível que causaria o meu exílio. Sempre fui obcecada pelos estudos e tudo que Leoni nos passava era rapidamente absolvido por mim. Interessei-me pela conjuração e expulsão de demônios, mas isso não foi bem aceito pelos membros da Legião.

Porem existia uma pessoa, um menino, que diziam ser melhor do que eu. Comentava-se que era surpreendentemente rápido em tudo que fazia e que estava sendo preparado para o Conselho dos Magos na qual eu já estava de olho há algum tempo. Este era neto de Leoni e se chamava Lucius Wagener.


Observava a hierarquia de perto afim de um dia fazer parte deste grupo distinto de bruxos que lideravam todas as legiões do mundo. Sempre foi minha obsessão.

Conheci Lucius quando ele ainda era uma criança. Leoni havia me convocado à mansão a fim de me propor uma missão. Quando cheguei à casa dos Wagener, logo fui escoltada por dois guardas. A velha bruxa era precavida até mesmo com os seus colaboradores. Não deixava lacunas, qualquer um poderia ser inimigo infiltrado.

Pelos corredores do jardim avistei de longe uma criança com característica delicada e face de um semblante doce, dele emanava uma energia muito poderosa. Realmente não se tratava de uma criança qualquer.  Rumores especulavam que ele possuía habilidades intrigantes. Algumas delas incluíam a capacidade de ler mente e antecipar o que ainda não aconteceu.

Lendas que pude confirmar com meus próprios olhos.

Ao passar pelas fontes não pude me conter e, para confirmar os boatos, o olhei incisivamente. Logo no primeiro pensamento de injuria focou, repentinamente, a visão em mim como se soubesse o que se passava em minha mente. Curioso essa reação dele. Algo me dizia que haveria uma historia entre essa peça fabulosa, que faria parte dos planos do Conselho, e eu.

A lenda estava em minha frente encarando-me desconfiado.

Esperei por Leoni no saguão da mansão. Eles me deixaram só por algum tempo e nesse período pude refletir sobre meus planos de estudos, pois em pouco tempo estaria entrando nos conceitos da magia negra e estava exitada com a idéia.

- Ola minha jovem - A velha Leoni descia as escadas e me cumprimentara com um aceno de mão.

- Ola Sra. Leoni - Sentei-me rapidamente, estava diante de um membro do conselho que eu almejava.

- Está preparada para a missão? – Perguntou Leoni com expressão serena.

            Leoni era uma bruxa muito poderosa. Tão temida quanto Morgana, bruxa da floresta, que também fazia parte do Conselho. Eu não sabia ao certo qual era a verdadeira intenção de Leoni, mas estava com um mau pressentimento.

 Alguns dias antes, numa taberna perto de San Dellot, rumores de que alguns membros do Conselho dariam um golpe no Ancião Mestre para tomar a cadeira se alastravam como fogo em palha. Talvez fosse isso, esses rumores me deixavam inquieta.

- Sarah, você foi escolhida por ter em si o espírito do fogo - Disse Leoni tocando em meu ombro. E continuou com a proposta.

Longo tempo se passou de conversa, tudo estava resolvido. Despedi-me de todos e parti para minha casa.

Confesso que sempre tive mania de conspiração. Poderia ser apenas mais uma dessas viagens que minha mente fazia sem sequer sair do lugar, mas o pedido de Leoni realmente era estranho. Deixava transparecer objetivos ocultos.

O sol já havia sumido e a lua brilhava na noite fria, ora se escondia atrás das neblinas.

Pensava incessantemente na proposta que Leoni me fizera naquela tarde. Estava ansiosa. E eis que o pensamento de conspirações voltara a me atordoar. Estava começando a me convencer de que realmente havia uma conspiração e por isso não cumpriria a missão como o combinado.

Isso poderia até parecer loucura, mas eu estava disposta a desafiar a família Wagener. E os motivos eram simples, minha intuição revelava algo estranho que acontecia por baixo da seda fina e sensível que eram os acordos de paz naquele momento. Bastava um deslize para uma grande guerra se iniciar.

Estava decidido.

Eu não participaria de nenhum atentado contra o Conselho, mesmo se tivesse que desafiar meus superiores.

No outro dia, convicta de que recusaria a oferta, retornei a mansão para explicar-me a Leoni. Ao ouvir os motivos que me impulsionou a recusar a proposta Leoni decidiu minha expulsão do clã. Deixou-me sem casa, comida ou roupas.

Acusaram-me de magia negra. Esse foi o critério adotado para o meu exílio. O fato de eu saber demais sobre os planos dos Wagener me tornara uma agente perigosa e isso me rendeu semanas de perseguição intensa até que encontrei o bosque nebuloso.

A partir desse dia eu fiquei conhecida como a Dama Negra que traiu seus mestres. Sem nenhum remorso do que havia feito segui os próximos dias de minha vida arquitetando formas de me vingar de todos daquela família.


* * *
PARTE 2
Bruxa das Névoas

Prólogo


Todos o criticavam. O julgavam dizendo que era cruel e egoísta.

Não posso discordar. Afinal ele jogou tudo para alto e destruiu muitas coisas por um único objetivo.

Mas ninguém nunca parou para pensar no que estava acontecendo, sempre esperavam mais dele. Mais do que ele poderia dar. Tinha sonhos e desejos como todos. Era uma pessoa boa e amorosa, ouvinte de todas as situações e esbanjava generosidade e empatia.

Ele tinha apenas um problema, era vingativo. Todos que tentavam contra ele acabavam de alguma forma, pagando o preço. Tudo que lhe era especial sempre fora muito bem guardado e se algo o tocasse por motivos políticos ou religiosos era destruído.

E quem não faria isso? Ele costumava dizer que “quando o homem perde o que ama mostra sua verdadeira face”. 

E foi justamente quanto ele estava sofrendo que tudo aconteceu de forma abrupta e sem sentido para nós que o rodeávamos. Não digo que isso justifique suas atitudes, apenas digo que todos faziam o mesmo que ele.

Estavam tão preocupados com seus próprios interesses que não perceberam estar, naquele momento, sendo manipulados e destruídos. O que aconteceu foi que ninguém prestou atenção nos sentimentos daquele homem que fez tanto “mal” para todos.

Então lhes pergunto agora; quem somos nós pra julgar alguém?


Devemos prestar muita atenção, pois, às vezes enquanto criticamos estamos tomando a mesma atitude daquele a quem julgamos. Talvez de uma forma diferente, mas podendo ter o mesmo resultado. A destruição e a mutilação

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

10º Capítulo
Enrascada


Ouvia fortes estrondos enquanto corria. Nas paredes viam-se flashes de luz constantes. A batalha havia começado.

Subi as escadas rapidamente. Juan orientou-me para que não parasse em hipótese alguma. No entanto, era de minha natureza a curiosidade. Olhei para traz e vi a movimentação que acontecia no saguão.

Outro estrondo ocorreu e então cinco soldados foram jogados para trás.

- O que faria uma coisa dessas? – Dizia baixinho. A questão não deveria ser o que, mas sim quem faria uma coisa assim? Quem seria tão insano ao ponto de invadir nossa casa?

Fiz exatamente o contrário do que Juan me orientou e comecei a diminuir a velocidade. Antes de chegar ao último degrau presenciei um acontecimento que definiria minha linha de pesquisa na bruxaria.

Um homem alto, com um Sobretudo, apareceu na porta que dava entrada a biblioteca. Entraram pelos fundos e se infiltraram rapidamente pela casa. Eram muito poderosos, ou pelo menos era o que aparentava. O homem levantou a mão esquerda e, curiosamente, fez surgir uma bola flamejante. Entretanto, não havia conjurado verbalmente coisa alguma, não dissera uma só palavra.

La de baixo o homem elevou a cabeça e me fitou com olhar tenebroso. Seus olhos também apresentavam um aspecto brilhoso como os de Juan e Leoni.

- Será que é uma magia? – questionava-me.

Sua energia assinava a maldade. Ele, sem sombras de dúvida, estava determinado a me exterminar.

Percebendo que eu alcançava a porta andou três passos e lançou a bola de fogo em minha direção. Teria me acertado, não fosse a intervenção de Juan. A bola se desfez no ar.

Pela entrada da ala leste ressurgia Juan. Carregava em sua mão esquerda um cajado. O homem, estático, fixou a visão em Juan que já estava a sua frente, talvez três ou quatro metros.

Juan iniciou o ataque investido com um soco direcionado ao rosto do indivíduo que desviou e devolveu com o mesmo golpe. Juan era veloz e se esquivou inferindo mais um tentativa no adversário que, desta vez, foi golpeado na região abdominal.

Suas mãos começaram a flamejar novamente, sem nenhuma invocação, e um ataque, mais poderoso que o anterior, fora lançado em Juan que levantou as mãos e, também sem dizer nada, criou um campo luminoso em volta de si que o protegeu das chamas mortais do inimigo.

 - Excepcional – Fiquei encantado com o que estava vendo – Como pode alguém invocar sem ao menos dizer uma palavra? – Até aquele momento apenas havia estudado sobre invocações verbais onde eu chamava o que queria. Aquilo tudo era novo. Sem sombra de dúvidas estavam em outro nível.

Já conseguia ver a porta do meu quarto quando cheguei ao corredor superior, mas resolvi, contrariando severamente as regras de Juan, parar e apreciar a batalha.

Senti que mais bruxos se aproximavam do saguão, uma soma razoável levando em consideração a mansão que estavam invadindo. Eles já estavam mortos, mesmo se conseguissem escapar dali com vida, Leone os caçaria pelo resto de suas vidas e quando os encontrassem seria uma verdadeira cena de tortura e sofrimento.

Mais três bruxos apareceram aliando-se ao homem das mãos de fogo. O primeiro que apareceu era baixo, usava uma capa acinzentada e com pelos em torno do pescoço. O segundo era de altura mediana e usava roupas de plebeu, tudo muito simples. E o terceiro era mais alto, usava vestimenta de tecido fino. Tratava-se de uma equipe formada por verdadeiros ideais, e não apenas calcados numa convenção de linhagens sanguíneas. O único problema é que eles queriam me matar.

Agora eram quatro contra um.

Mais uma esfera de fogo fora criada e essa era ainda maior do que as outras. Os outros três se posicionaram circundando Juan e, semelhantemente, criaram energia Elemental em suas mãos. Fogo, raio, água e gelo eram os elementos conjurados pelos bruxos. Em um ataque conjunto combinaram suas energias lançando simultaneamente em direção a Juan. O que aconteceu dali para frente fora, de fato, algo surpreendente.

Juan olhou para todos os lados na tentativa fútil de encontrar uma saída, no entanto não obteve sucesso. Embora parecesse o fim para o guardião, mais uma reviravolta estava para acontecer. Tornou a olhar para o “mãos de fogo” e elevou o cajado poucos centímetros do chão conjurando mentalmente alguma magia. Quando martelou com seu cajado no chão do saguão um eco ressoou e tomou conta do ambiente. Então o som e o movimento se tornaram lentos gradativamente. Tão devagar que quase chegaram ao silencio absoluto. Tive a impressão de que o tempo parava.

- Mais uma magia ou apenas um delírio de minha parte? – questionei-me.

Os elementos que, tomavam lugar no espaço e tempo, percorriam vagarosamente o caminho convergindo-se no ponto central onde Juan se encontrava.

Juan se retirou daquele ponto com sutileza. Parecia até que não era afetado pelo tempo, que estava isento às leis da natureza. De forma incrível ele saia da zona de convergência dos elementos livrando-se de outro ataque mortal. Como se não bastasse sacou uma adaga da cintura e golpeou seus quatro agressores apunhalando-os no peito finalizando a batalha.

Lá de baixo Juan fitou-me, com os olhos brilhantes cor de mel, e o tempo começou a correr normalmente.

Eu tinha curiosidade sobre qualquer coisa que se relacionasse com o tempo. Uma vez que o meu maior trunfo sobre os adversários era justamente poder vê-lo.

- Cammus stratus – Disse outro invasor que se aproximava pela porta lateral do saguão. Desta vez foram mais rápidos que Juan. Pude sentir na energia de Juan o que ele queria me dizer e acatei, sem mais delongas, sua ordem.

Não sei ao certo o que acontece com ele no saguão. Sabia que sairia com vida da batalha, mas eu perderia a parte mais interessante da luta. Apenas segui suas ordens e adentrei no meu quarto a fim de alcançar o esconderijo.

Juan realmente era muito talentoso no que se referia a magias. Naquele pequeno momento em que estive vislumbrando sua batalha pude perceber algumas coisas em sua alma. Umas, em particular, me deixaram muito curioso a seu respeito. Nunca tinha visto Juan em uma batalha e a minha primeira experiência com essa situação me rendeu conhecimentos valiosos sobre o tempo e o espaço. Em primeira vista Juan era exatamente igual aos outros bruxos. Mas eu não entendia o porquê dos olhos brilhantes. Notavelmente compreendi que se tratava de uma submaterialização. A energia estava entre os dois mundos. O espiritual e o físico. Por isso a latência em seus olhos.

Uma segunda coisa que me chamou a atenção, e que foi possível compreender naqueles breves momentos, foi a ausência das palavras de invocações. Tudo que existe, tudo o que pensamos passa por um processo em nossas mentes. Elas ganham imagens, que são instantaneamente traduzidas para sensações, que por sua vez terminam por serem transmitidas como sentimentos. Ninguém melhor do que eu para compreender isso, já que essa era uma habilidade inerente ao meu espírito. Para a boa execução da magia o bruxo deve explorar o seu sentimento e usá-lo para moldar sua energia.

Em outras palavras, ele sentia o que queria fazer trocando a palavra pela imagem gerada mentalmente, pulando a etapa da execução verbal.

E um terceiro fato, não menos importante, que pude perceber estava introjetado na alma de Juan. Assemelhava-se a uma bússola. Uma energia misteriosa que poderia, por breves momentos, burlar o tempo e o espaço.

Chamavam isso de Dom Especial. Assim como eu, com o Dom da Previsão, Juan possuía uma habilidade rara. Essa energia que, provavelmente, nasceu com ele dava suporte para tal façanha. Dobrar o tempo e o espaço. Era incrível.

           Cheguei a essas conclusões percorrendo o pequeno corredor que, após as escadas, dava acesso ao meu quarto. Porem, nem tudo saem da forma que planejamos.
Fizemos aquelas encenações centenas de vezes, tudo deveria acontecer exatamente como o protocolo previa. Em caso de invasão eu deveria correr e me esconder no quarto enquanto os soldados lutam para defender minha família. Se bem que eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Quem seria louco o suficiente para invadir a mansão dos Wageners? E quem disse que numa situação real tudo sairia exatamente como o combinado?

           Quando entrei no quarto e direcionei-me ao local secreto, percebi outras presenças no ambiente.
Eu não estava sozinho.
           
          No meio do quarto, olhando para todos os lados, notei que estava cercado por três militantes Grannins. Ambos armados com espadas emanavam sentimentos de altruísmo à piedade, apertavam o cerco em minha direção. Eu não sabia o que fazer. Não fazia parte do protocolo.


Era uma verdadeira enrascada.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

9º capítulo
Uma Invasão



Três semanas se passaram desde que fomos a San Dellot.

Trancado em meu quarto eu cumpria um castigo repleto de estudos sobre magia. Enfim, o último dia de exílio chegara.

A manhã estava brilhante. O sol, suntuoso, declarava que o dia seria calmo e caloroso. Quem dera tivesse sido.

- Lucius, desça – Estava na hora do café da manhã. Minha Avó exigia que eu fosse ao salão e que a acompanhasse em sua refeição.

Minutos depois que sentei a mesa a velha Leoni introduziu a conversa.

- Sente-se feliz por ter desobedecido minhas regras? – Dizia com tom de ironia.

Baixei a cabeça em sinal de respeito.

- Apenas queria saber sobre meu sonho.

- E encontrou alguma coisa na cidade? – Insistia Leoni.

- Um vidente – Respondi. Ela gargalhou caçoando-me.

- Tantos videntes em nossa legião e você procurando um na Cidade dos Pervertidos - Leoni referia-se a cidade desta forma devido à presença de Grannins e suas batalhas constantes. A cidade era um lugar perfeito para o encontro de renegados.

- A senhora nunca quis traduzir meu sonho. Esse foi o motivo pelo qual fui à procura da quiromante de San Dellot – Disse com a cabeça baixa.

- Menino ingênuo, e se alguém o tivesse reconhecido? – Perguntou. Mudara completamente o semblante – O que lhe aconteceria? – Disse enquanto cortava uma fatia de pão.

Ela estava certa. Obviamente não estaria aqui contando esta história se isso realmente tivesse acontecido naquele dia. O ser humano tem certa tendência a procurar o perigo. Quando estamos sentenciados a viver tal situação não existe o que fazer para impedir.

- Eu não sei Vovó – Claro que sabia. Apenas não queria prolongar a conversa. Minutos de dialogo com Leoni poderia significar uma vida inteira de inimizade.

- Às vezes eu me pergunto se você realmente conhece o significado da palavra perigo. Você sai de casa com uma menina em busca de aventura. Com que finalidade? – Leoni abria os braços em sinal de questionamento – Apenas para satisfazer uma vontade pessoal - Ela mesma respondera a pergunta.

Era óbvio que algo me afligia e ela sabia disso.

- Você não deve ter pensado, em nenhum momento, no bem da Legião. Apenas em seus próprios desejos – Leoni dizia em tom de provocação.

- Claro que não. Sempre me preocupo com os membros da Legião – Mentira. Eu queria conhecer o mundo e a Legião era como um fardo para mim. No entanto, era certo, eu deveria me mostrar interessado pelos assuntos da Legião se quisesse não ser incomodado.

- Eu acredito em você, menino. Mas suas atitudes não condizem com o que realmente esperamos de você – Toda essa pressão me deixava ansioso e me fazia perder o sono. O que realmente esperavam que eu fizesse?

- Me desculpe Vovó. Isso não vai mais acontecer – Prometi a Leoni.

- Hoje vou à cidade de Visávia conversar com a Família Penesus. Está havendo alguns problemas e conflitos com os bruxos locais e por isso convocaram-me a uma reunião de emergência – Nossa mansão, apesar de grande, era deslocada das cidades. Visávia era uma cidade distante e levava, pelo menos, umas seis horas de viagem de charrete. Algo muito intrigante deveria ter acontecido para que Leoni se retirasse em direção a esta cidade.

- Não se preocupe, não sairei de casa – Nem podia. Na parte externa da casa havia diversos sentinelas. Quando Leoni resolvia ir à cidade, convocava centenas de guardas. Era a única forma de deixar o ninho sem muitas preocupações.

- Seus pais virão aqui mais tarde, portanto apresse-se em terminar seus estudos – Eu morava na mansão com minha avó enquanto meus pais moravam em Caluíta, cidade vizinha a San Dellot – Quando finalizar pode ir brincar no jardim.

Horas se passaram desde que comecei a leitura do livro dos elementos. Já estava cansado de estudar. Precisava fazer algo que me relaxasse. O sono tomava conta e eu mal podia me concentrar.

-Desse jeito eu nunca terminarei de ler este livro – O livro era o terceiro da coleção Elemental que minha avó havia conseguido. No entanto, apenas minha família tinha acesso a ele. Nele continha os segredos da 
manipulação Elemental com base na energia física do indivíduo.

Na mesa grande e retangular, com diversos livros abertos, tinha um copo de vidro e água em seu interior. Parecia-me um momento ideal para brincar com os elementos.  Estiquei os braços e segui as instruções do livro.

São quatro etapas para se materializar o imaterial. Na primeira você deve esvaziar a mente de qualquer interferência externa. Deve existir apenas você e o objeto. Na segunda etapa deve-se identificar o objeto a fim de estabelecer um vinculo com o mesmo. Na terceira, é necessária a ausência do tempo e do espaço. No quarto, o mais importante, deve existir a união do espírito e do corpo.

Não me parecia muito fácil. Mas eu tentei mesmo assim. Embora eu já houvesse realizado algumas magias, ainda não possuía experiência com magia no plano físico.

Tecnicamente era mais complicado.

O copo começou a chacoalhar e a água a se mover. Eu queria que o elemento flutuasse em gota. Mas consegui apenas que ele se agitasse. Já era um começo.

Os magos elementares eram ativos de batalha. Os magos negros, bem, nem preciso  comentar. Enquanto que os magos brancos eram passivos e utilizados nas defesas. Eram verdadeiros escudos contra as forças das trevas. Geralmente um bruxo era dotado de apenas uma qualidade de magia, porém, em raros caros, as qualidades coexistiam, ou seja, haviam bruxos que eram beneficiados com duas qualidades mágicas.

Assim como existiam Legiões de elementares e de magia branca, também eram comuns as Legiões de bruxos que se utilizavam de magia negra. Causadoras do câncer espiritual.

Minhas tentativas foram interrompidas por uma visão repentina. Vi seis pessoas invadindo a mansão.
- Mesmo com esse contingente de guardas isso seria possível? – Refletia em pensamento – Devo avisar Juan imediatamente.

Em disparada atravessei metade da mansão até encontrar meu guarda-costas.

- Juan – Lancei um grito ofegante – A casa está sendo invadida.

- Tem certeza disso, Lucius?

- Absoluta. Acabei de ter uma visão. Eles conseguirão entrar na mansão.

- Impossível – Disse pasmado – Não tem como acontecer esta invasão.

Nem havia dado tempo de Juan terminar a frase quando um guarda bateu às portas dizendo.

- Senhor, estamos sendo atacados. São seis homens que entraram pelos portões dos fundos.

- Mas como isso é possível? – Juan ficou impressionado com a audácia dos invasores – Não devem ser bruxos comuns. Devem ser Grannis – Concluía em resmungos.

Mais uma vez ouvia aquela palavra. Grannins.

- O que será que querem aqui? – Perguntava a mim mesmo.

- Quero todo mundo lá fora. Eles não devem entra na casa – Era uma ordem dada por Juan.

- Lucius, faça exatamente o que vou lhe dizer – Ajoelhou-se e com as mãos em meus ombros pôs-se a falar 

– Corra para seu quarto e tranque a porta. Esconda-se no esconderijo. Tudo vai acabar bem.

- Esta bem, Juan – nunca o havia visto daquele jeito. Seus olhos estavam amarelados e brilhosos.

Dada a ordem comecei a correr em direção ao meu quarto.


Uma batalha estava para começar e eu a perderia.