7º capítulo
A Quiromante
- Senhora Grandeth – Berrou Elga quando entramos em uma
barraca situada no centro do comercio.
Depois de ver a Dama Negra
naquele estabelecimento fiquei com receio de andar pela cidade.
Haviam muitas
pessoas que dariam tudo para me ver morto. Mas ninguém queria isso mais do que
ela.
- Senhora Grandeth –
Mais uma vez soltando a voz. Elga me puxou para dentro. Com passos rasos
adentramos na tenta colorida cheia de parafernálias penduradas nas cordinhas de
algodão. Deveriam servir para fazer barulho quando o vento soprasse. No centro
da tenda havia uma mesa redonda de madeira rústica coberta com uma toalha de desenhos
geométricos e, no centro da mesa, uma bola de cristal. Ao lado tinham cartas de
tarot distribuídas já em intenções de leitura. Havia também um aparador
adornado de pedras de quartzo de todas as cores e cristais. Existia um cheiro
muito familiar, o de incenso. Era sândalo, minha essência favorita.
- Acho que ela não esta aqui, Elga - Disse a ela – O que são
essas coisas? – Referia-me as parafernálias penduradas. Algumas de bambu,
outras de pedras.
- Minha mãe disse que essas pedras coloridas penduradas
servem para espantar maus espíritos e manter o recinto harmonioso.
- É muito bonito mesmo esse som. Assemelha-se a sinos. Gosto
de sinos – Os sinos devem ter algum poder sobre minha capacidade de me
concentrar - Na verdade, toda vez que ouvia o som de um sino me sentia com
certa tranqüilidade. Como se eu tivesse dopado por drogas.
- Verdade. Parece que a senhora Grandeth não está - Disse
Elga, depois de cuidadosamente vasculhar a barraca com seus olhos - Eu disse
para virmos logo para cá. Mas não, você tinha que fica olhando aquela luta sem
sentido, não é Lucius? – Estava furiosa. Empinava o nariz e dobrava as
sobrancelhas – Vamos embora antes que nosso castigo, por termos fugido, se
estenda por meses de reclusão em nossos quartos.
Baixei a cabeça com um aceno
positivo. Elga estava certa. Assim que minha avó descobrisse me deixaria de
castigo por longo tempo em meu quarto.
Já nas ruas de San Dellot, eu e
Elga andávamos com pressa a caminho da mansão. Com nosso objetivo frustrado não
nos restava outra coisa a não ser voltarmos e aceitar o castigo.
- Droga Lucius - Resmungava Elga – Eu não acredito que
viemos ate aqui para voltarmos de mãos abanando para casa.
- Me desculpe Elga.
- Esta tudo bem, no fundo eu também queria saber do que
falavam quando envolveram o nome da sua família naquela briga. Só estou assim
por não termos conseguido, mais uma vez, saber do que se trata esse maldito
sonho que te perturba a muito tempo.
- O que esta havendo com vocês crianças? – Uma voz estranha
soou mais alto na multidão. Era um homem estranho com aparência esquisita.
Possuía queixo grande, olhos negros e pintados com a cor preta. Na cabeça um
chapéu do tipo cartola e no rosto, abaixo do nariz grande e pontudo, havia um
bigode fino. Usava roupas colorida e nos pés sapato de bico. Assemelhava-se a
um palhaço. Mas sem circo.
- Vamos Lucius, não de atenção a este homem. Não o conhecemos
- Viramos a fim de continuar com o percurso. Foi quando o homem se dirigiu a
nós mais uma vez.
- Elga Banglynneet. Seu nome, não é? Tem um futuro promissor
cheio de feitos incríveis – O homem sacou do bolso um maço de baralhos e
começou a fazer truques passando-as de um lado para o outro em seus dedos grandes
e finos. Tinha um sorriso assustador e dois dentes de ouro, o que o deixava
ainda mais sinistro.
Elga parou com os ombros altos.
Olhava para baixo e não entendia como aquele homem sabia seu nome. Tentava
buscar em sua memória relatos que provassem que ela o conhecia. Mas nada
encontrara.
- Como sabe meu nome? - Certas horas, Elga parecia-se com
uma predadora infernal. Aqueles olhos cor de mel, quando fixados fortemente em
um objetivo, me davam cala-frios.
- Ora minha cara. Andas com um prodigo que lê o futuro, mas
não reconhece um adivinho quando o vê? Sou um quiromante. Estou aqui para
servi-los - Disse o homem que emanava uma energia de cor azul cinzento.
- Qual o seu nome, senhor? - Perguntei a ele depois de ver
que Elga se calara.
- Me chamo Ricco Maturn. Posso lhe ajudar com seus sonhos,
pequeno Lucius – fez sinal de reverencia prostrando a cabeça para baixo, uma
mão nas costas e outra apontada para nós – Afinal de contas, o que você fará no
seu futuro também é de meu interesse.
- Como sabia que eu tinha um sonho e como nos encontrou? - Fiquei
curioso com aquela historia de adivinho. Seu dom se assemelhava ao meu e eu
queria ver mais.
- Tive um sonho onde apareceram dois pombos que pousavam
nesse lugar, traziam consigo bilhetes de recados nas patas. Um deles continha
seu nome e o outro o de Elga. Os pombos começaram a bicar os farelos de pães
que eu jogava. Depois disso, entendi que viriam para cá e que eu deveria ajudá-los.
- Interprete de sonhos. Mas por que se diz adivinho? –
Finalmente Elga quebrara o silencio em que se refugiava.
O homem gargalhou com voz grossa e
assustadora.
- Simplesmente porque adivinho as coisas minha cara
pequenina – começava ai um impasse.
- Diga algo a meu respeito, senhor Ricco – Resolvi testá-lo.
O homem olhou fixamente meus olhos e contraiu a pupila, parecendo buscar algo
em meu interior. Percebi que revirava minha mente em busca de detalhes.
Suspeitava que pudesse ler mentes. E não me enganei.
- Menino medroso. Tem poucos amigos. Existe um problema
entre você e sua avó, talvez vocês não se entendam muito bem. Vieram em busca
da quiromante da tenda central, mas não a encontraram – ele revirou os olhos
deixando-os brancos. Buscava mais fundo – Posso ver seu futuro, destemido
encontrara em seu caminho um homem sem face que lhe servira e depois lhe
destruíra.
- Isso todos já sabem, até mesmo a aldeia mais distante sabe
sobre a família Wagener. Essas coisas que você esta revelando não nos surpreende
em nada, senhor – Elga repreendia aparentemente inquieta com a situação.
- Mencionei sobre sua capacidade de prever o futuro, mas não
sobre algo que somente vocês dois sabem. Lucius não pode prever o próprio
futuro – gargalhou mais uma vez. Estava com as sobrancelhas inclinadas para o
nariz indicando sagacidade em seu olhar.
Permanecemos calados por alguns
segundo. Era verdade. Ninguém sabia deste detalhe.
- Mas como este homem poderia saber disso? – Questionava
Elga mentalmente. Eu estava ligado nos sentimentos dela. Por isso, para mim era
fácil saber o que pensava.
- Seus métodos são interessantes, jovem Lucius. Utiliza-se
dos chegados para saber de seu futuro. Sabendo o que lhes acontecerão seria
fácil supor o que causaria em sua vida. A lei da ação e reação. Certo? – Ele
realmente tinha razão. Eu estava sempre um passo a frente dos inimigos, e
previa seus movimentos, desta forma tomava minhas decisões com base no que
fariam. Para evitar ou ajudá-los.
- Por que você não me disse que ele apareceria? – Perguntou
Elga sussurrando em meu ouvido.
- Porque não o vi – respondi – Ele não tem más intenções,
não é de sua vontade nos machucar, do
contrário eu já teria previsto sua
aparição.
- Não estou sentido boas vibrações disso tudo. Acho que
devemos ir embora – Elga parecia estar ansiosa.

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