segunda-feira, 2 de setembro de 2013

6º capítulo

San Dellot




A manhã ainda estava nublada.

Três horas haviam se passado desde o café da manhã. Minha Avó e os Banglynneet ainda não haviam saído da mansão, e algo me dizia que não sairiam tão cedo.

Juan nos levou ate o chafariz no centro do jardim no fundo da mansão. Muito raramente eu passava por aquele local.

Elga mexia em sua bolsa preparando algo. Ouvia barulhos de papel sendo amassado. Olhou-me, com os lábios contraídos e cabeça baixa, e me fez novamente um aceno com a cabeça. Entendi que se tratava da distração que havia mencionado anteriormente.

- Juan, você sabia que o sol guarda muitos mistérios mágicos? - Iniciei uma conversa com Juan que me parecia muito distante.

- Claro Lucius. Eu não sou Elemental, mas aprendi algumas coisas na escola - Respondera com um leve sorriso no rosto. Seus dentes eram brancos e lhe proporcionava um sorriso lindo, encantador, assim como seus olhos esverdeados e sua pele fina e branca. O vento lhe passava pelos cabelos louros que dançavam a melodia que ninguém podia ouvir.

- O que sabe de magia, Juan? - Perguntei curioso.

- Sunus tetrôity - Elga sussurrou em seu ouvido um estranho encantamento.

- O que fez com ele Elga? - Perguntei desesperado.

- Tem horas que você me surpreende com suas capacidades, mas em outras se parece tanto com um menino normal. O fiz adormecer, por isso pedi que o distraísse.

- Onde aprendeu isso? - Perguntei assustado.

- Esses dias eu vi minha mãe lendo seu Grimório e a acompanhei, sem que ela percebesse, até o seu esconderijo. E veja só, aprendi algo interessante.

- Você roubou o livro de sua mãe?

- É disso que estou falando, um menino normal. Lucius, eu apenas o li e depois devolvi para o mesmo lugar. Ontem quando nos falamos eu já sabia que viríamos ao café da manhã e que certamente a conversa dos adultos nos levaria a Juan que por sua vez nos traria para fora da mansão.

- Bem pensado, Elga. Agora, o que faremos? - Elga era muito perspicaz. Entendia de antemão as insinuações das pessoas numa forma de interpretação comportamental.

- Vamos - Pegou em meu braço e me puxou bruscamente pelo corredor de folhagens do jardim.

- La está. Duas sentinelas no portão principal – Nos escondemos atrás de uma arvore com formato de cavalo. Elga esticava o pescoço enquanto descrevia o que acontecia.

- Eles estão vindo em nossa direção, fique preparado.

             E eu concordava.

- Lá vamos nós. Câminy La Tuna - Era mais um encantamento que provavelmente houvera lido no Grimório de sua mãe tempos antes. As sentinelas caíram no chão sem sequer saber o que os atingiram.

- É desse jeito que sua avó quer proteger sua casa? - Elga perguntava gargalhando e correndo loucamente pelo caminho de pedras que fazia a estrada para San Dellot.

- Você está me assustando com isso tudo que anda fazendo, menina - Comecei a brincar com a situação, mas sem desprezar suas proezas. No fundo sentia certa admiração pela sua capacidade de pensar rápido e aprender magia.

San Dellot era perto da mansão, deveria ficar a uns vinte minutos de charrete. Levamos uma hora para chegar à cidade a pé. Deveríamos ser ligeiros, pois, logo perceberiam nossa ausência e mandariam soldados por todos os cantos. Tínhamos que nos apressar.

Entramos na cidade pelo portão principal.

San Dellot era uma cidade de comércio e por isso era muito movimentada em todas as horas do dia.

Ao sol, os comerciantes com suas quitandas, e até mesmo com panos estendidos nas calçadas, vendiam comida, vinhos e alguns armamentos. Carroças cheias de legumes transitavam pelas ruas e cavaleiros passavam de um lado para outro com seus belos trajes. Havia estábulos por todos os cantos, tabernas. Era um alvoroço total.

De noite, funcionava o trafico de escravos, bordeis e tabernas que nunca se fechavam.

- Venha. É por aqui - Elga me guiava em meio a tanta gente.

Eu jamais havia saído tão longe assim sem que minha avó estivesse comigo. Ela sempre me dissera que podia ser perigoso andar sozinho pelas cidades. Mas naquele dia eu entrei em uma aventura que jamais esqueceria.

- Aqui. Venha, está muito devagar. Deste jeito a mulher já terá ido embora quando chegarmos lá - Brincava Elga enquanto corríamos trombando pisoteando os pés das pessoas.

Ouvimos gritos e grasnos de lutadores. Com a cabeça girando de norte a Sul notamos uma taberna onde ocorria uma briga. Um homem fora lançado por um bárbaro louro com roupas rasgadas que, caindo em nossa frente, obstruindo nossa passagem. Paramos.

- Seu Grannin desgraçado. Volta pra sua família, bastardo - Granava o homem da taberna - Você já nos deve muito. Aqui já não tem lugar para você.

- Eu quero terminar a batalha. Quero vencer o Grannin Wagener.

Aquela frase me fizera atentar-me ao caso do homem e me despertara gigante curiosidade.

- Quero entrar aqui - Pedi a Elga.

- Claro que não, Lucius - Esbravejou me apertando o braço - Vamos sair daqui imediatamente.

Mas de nada adiantou. Entrei na taberna sem que ninguém me notasse e assisti ao embate que acontecia ali.

Ouvi que eram magos renegados que duelavam naquelas tabernas para mostrarem quem era mais forte. Lutas físicas e mentais aconteciam sempre que um deles desafiava.

- Uma arena - Sussurrei a mim mesmo.

- Verdade, agora que você já viu vamos embora - Mais uma vez Elga me puxava pelo braço. Mas eu não estava disposto a sair dali. Queria ver como era.

Os dois homens se posicionaram na arena. Numa arena circular estavam homens de todas as terras. Desde mendigos a comerciante que iam apreciar os duelos de magos.

O homem que acabara de ser jogado para fora estava na arena novamente. Aparentemente inclinado a finalizar o duelo. O outro, maior e representando ser mais forte fisicamente, sacou uma arma que assemelhava-se a uma espada bárbara. Seu impacto além de fazer um profundo corte no adversário o jogaria longe, por ser pesada. O outro por sua vez se mantivera inabalável mesmo com a ameaça. Era menor, mas parecia mais ágil.

O espadachim avançou em velocidade em direção ao desafiador e levantando a pesada espada preparou um ataque para abatê-lo com apenas um golpe.

Surpreendentemente o homem magro esquivou-se e sacou uma adaga das botas que lhe servira para acertar o rival. O golpe inferido não fora mortal, apenas um arranhão no peito.

- Miserável - Sua voz ressoava como rugido de um leão - Machucou-me com sua faquinha.

Os outros começaram a rir. Levantavam canecos de vinho e brindavam a luta.

- Não o conheço - Confidenciei a Elga que estava ao meu lado.

- Nem eu. Mas agora já chega, vamos sair daqui imediatamente.

Os homens mais uma vez se envolveram num outro ataque.

- Espere Elga. Essa energia eu conheço - Disse a Elga procurando com a cabeça em meio a multidão de bárbaros.

Do outro lado da taberna estava um rosto conhecido, embora a tivesse visto apenas uma vez sua energia era inconfundível.


- Aquela moça do outro lado, eu já a vi na mansão. A três anos atrás eu estava no jardim com meus guardiões quando a vi entrar escoltada por dois guardiões. Minha Avó pretendia vê-la.

- Ora se não é a Dama Negra. Desertora - Desdenhou Elga.

- Acho que agora está na hora de sair daqui. Ela não esta aqui para se divertir. Sinto ameaça em sua energia – Falei a Elga.
Eu sentia em sua energia muito ódio. Estava claro, o que motivava esse ódio era intimamente ligado a família Wagener. Pouco depois de seu aparecimento na mansão, soube que havia sido expulsa da Legião, porem, não fazia idéia do motivo que promoveu esse retalhamento.

- Concordo plenamente. Temos que chegar logo a barraca da quiromante – Elga me dizia com expressão de medo.


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