6º capítulo
San Dellot
A manhã ainda estava nublada.
Três horas haviam se passado
desde o café da manhã. Minha Avó e os Banglynneet ainda não haviam saído da
mansão, e algo me dizia que não sairiam tão cedo.
Juan nos levou ate o chafariz no
centro do jardim no fundo da mansão. Muito raramente eu passava por aquele
local.
Elga mexia em sua bolsa
preparando algo. Ouvia barulhos de papel sendo amassado. Olhou-me, com os
lábios contraídos e cabeça baixa, e me fez novamente um aceno com a cabeça.
Entendi que se tratava da distração que havia mencionado anteriormente.
- Juan, você sabia que o sol guarda muitos mistérios
mágicos? - Iniciei uma conversa com Juan que me parecia muito distante.
- Claro Lucius. Eu não sou Elemental, mas aprendi algumas coisas na escola - Respondera com um
leve sorriso no rosto. Seus dentes eram brancos e lhe proporcionava um sorriso
lindo, encantador, assim como seus olhos esverdeados e sua pele fina e branca.
O vento lhe passava pelos cabelos louros que dançavam a melodia que ninguém
podia ouvir.
- O que sabe de magia, Juan? - Perguntei curioso.
- Sunus tetrôity - Elga sussurrou em
seu ouvido um estranho encantamento.
- O que fez com ele Elga? - Perguntei desesperado.
- Tem horas que você me surpreende com suas capacidades, mas
em outras se parece tanto com um menino normal. O fiz adormecer, por isso pedi
que o distraísse.
- Onde aprendeu isso? - Perguntei assustado.
- Esses dias eu vi minha mãe lendo seu Grimório e a
acompanhei, sem que ela percebesse, até o seu esconderijo. E veja só, aprendi algo
interessante.
- Você roubou o livro de sua mãe?
- É disso que estou falando, um menino normal. Lucius, eu
apenas o li e depois devolvi para o mesmo lugar. Ontem quando nos falamos eu já
sabia que viríamos ao café da manhã e que certamente a conversa dos adultos nos
levaria a Juan que por sua vez nos traria para fora da mansão.
- Bem pensado, Elga. Agora, o que faremos? - Elga era muito
perspicaz. Entendia de antemão as insinuações das pessoas numa forma de
interpretação comportamental.
- Vamos - Pegou em meu braço e me puxou bruscamente pelo
corredor de folhagens do jardim.
- La está. Duas sentinelas no portão principal – Nos
escondemos atrás de uma arvore com formato de cavalo. Elga esticava o pescoço
enquanto descrevia o que acontecia.
- Eles estão vindo em nossa direção, fique preparado.
E eu concordava.
- Lá vamos nós. Câminy La Tuna - Era mais um encantamento que provavelmente houvera lido no Grimório de sua mãe tempos antes. As sentinelas caíram no chão sem sequer saber o que os atingiram.
- É desse jeito que sua avó quer proteger sua casa? - Elga perguntava
gargalhando e correndo loucamente pelo caminho de pedras que fazia a estrada
para San Dellot.
- Você está me assustando com isso tudo que anda fazendo,
menina - Comecei a brincar com a situação, mas sem desprezar suas proezas. No
fundo sentia certa admiração pela sua capacidade de pensar rápido e aprender
magia.
San Dellot era perto da mansão,
deveria ficar a uns vinte minutos de charrete. Levamos uma hora para chegar à
cidade a pé. Deveríamos ser ligeiros, pois, logo perceberiam nossa ausência e mandariam
soldados por todos os cantos. Tínhamos que nos apressar.
Entramos na cidade pelo portão
principal.
San Dellot era uma cidade de
comércio e por isso era muito movimentada em todas as horas do dia.
Ao sol, os comerciantes com suas
quitandas, e até mesmo com panos estendidos nas calçadas, vendiam comida, vinhos
e alguns armamentos. Carroças cheias de legumes transitavam pelas ruas e
cavaleiros passavam de um lado para outro com seus belos trajes.
Havia estábulos por todos os cantos, tabernas. Era um alvoroço total.
De noite, funcionava o trafico de
escravos, bordeis e tabernas que nunca se fechavam.
- Venha. É por aqui - Elga me guiava em meio a tanta gente.
Eu jamais havia saído tão longe
assim sem que minha avó estivesse comigo. Ela sempre me dissera que podia ser
perigoso andar sozinho pelas cidades. Mas naquele dia eu entrei em uma aventura
que jamais esqueceria.
- Aqui. Venha, está muito devagar. Deste jeito a mulher já
terá ido embora quando chegarmos lá - Brincava Elga enquanto corríamos trombando
pisoteando os pés das pessoas.
Ouvimos gritos e grasnos de
lutadores. Com a cabeça girando de norte a Sul notamos uma taberna onde ocorria
uma briga. Um homem fora lançado por um bárbaro louro com roupas rasgadas que,
caindo em nossa frente, obstruindo nossa passagem. Paramos.
- Seu Grannin desgraçado. Volta pra sua família, bastardo -
Granava o homem da taberna - Você já nos deve muito. Aqui já não tem lugar para
você.
- Eu quero terminar a batalha. Quero vencer o Grannin
Wagener.
Aquela frase me fizera atentar-me ao caso do homem e me
despertara gigante curiosidade.
- Quero entrar aqui - Pedi a Elga.
- Claro que não, Lucius - Esbravejou me apertando o braço - Vamos
sair daqui imediatamente.
Mas de nada adiantou. Entrei na
taberna sem que ninguém me notasse e assisti ao embate que acontecia ali.
Ouvi que eram magos renegados que
duelavam naquelas tabernas para mostrarem quem era mais forte. Lutas físicas e
mentais aconteciam sempre que um deles desafiava.
- Uma arena - Sussurrei a mim mesmo.
- Verdade, agora que você já viu vamos embora - Mais uma vez
Elga me puxava pelo braço. Mas eu não estava disposto a sair dali. Queria ver
como era.
Os dois homens se posicionaram na
arena. Numa arena circular estavam homens de todas as terras. Desde mendigos a
comerciante que iam apreciar os duelos de magos.
O homem que acabara de ser jogado
para fora estava na arena novamente. Aparentemente inclinado a finalizar o
duelo. O outro, maior e representando ser mais forte fisicamente, sacou uma arma que assemelhava-se a uma espada bárbara. Seu impacto além de fazer um profundo corte no adversário o
jogaria longe, por ser pesada. O outro por sua vez se mantivera inabalável
mesmo com a ameaça. Era menor, mas parecia mais ágil.
O espadachim avançou em
velocidade em direção ao desafiador e levantando a pesada espada preparou um
ataque para abatê-lo com apenas um golpe.
Surpreendentemente o homem magro
esquivou-se e sacou uma adaga das botas que lhe servira para acertar o rival. O
golpe inferido não fora mortal, apenas um arranhão no peito.
- Miserável - Sua voz ressoava como rugido de um leão -
Machucou-me com sua faquinha.
Os outros começaram a rir.
Levantavam canecos de vinho e brindavam a luta.
- Não o conheço - Confidenciei a Elga que estava ao meu
lado.
- Nem eu. Mas agora já chega, vamos sair daqui
imediatamente.
Os homens mais uma vez se
envolveram num outro ataque.
- Espere Elga. Essa energia eu conheço - Disse a Elga
procurando com a cabeça em meio a multidão de bárbaros.
Do outro lado da taberna estava
um rosto conhecido, embora a tivesse visto apenas uma vez sua energia era
inconfundível.
- Aquela moça do outro lado, eu já a vi na mansão. A três anos atrás eu estava no jardim com meus guardiões quando a vi entrar escoltada por
dois guardiões. Minha Avó pretendia vê-la.
- Ora se não é a Dama Negra. Desertora - Desdenhou Elga.
- Acho que agora está na hora de sair daqui. Ela não esta
aqui para se divertir. Sinto ameaça em sua energia – Falei a Elga.
Eu sentia em sua energia muito
ódio. Estava claro, o que motivava esse ódio era intimamente ligado a família Wagener.
Pouco depois de seu aparecimento na mansão, soube que havia sido expulsa da Legião,
porem, não fazia idéia do motivo que promoveu esse retalhamento.
- Concordo plenamente. Temos que chegar logo a barraca da
quiromante – Elga me dizia com expressão de medo.

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