segunda-feira, 23 de setembro de 2013

9º capítulo
Uma Invasão



Três semanas se passaram desde que fomos a San Dellot.

Trancado em meu quarto eu cumpria um castigo repleto de estudos sobre magia. Enfim, o último dia de exílio chegara.

A manhã estava brilhante. O sol, suntuoso, declarava que o dia seria calmo e caloroso. Quem dera tivesse sido.

- Lucius, desça – Estava na hora do café da manhã. Minha Avó exigia que eu fosse ao salão e que a acompanhasse em sua refeição.

Minutos depois que sentei a mesa a velha Leoni introduziu a conversa.

- Sente-se feliz por ter desobedecido minhas regras? – Dizia com tom de ironia.

Baixei a cabeça em sinal de respeito.

- Apenas queria saber sobre meu sonho.

- E encontrou alguma coisa na cidade? – Insistia Leoni.

- Um vidente – Respondi. Ela gargalhou caçoando-me.

- Tantos videntes em nossa legião e você procurando um na Cidade dos Pervertidos - Leoni referia-se a cidade desta forma devido à presença de Grannins e suas batalhas constantes. A cidade era um lugar perfeito para o encontro de renegados.

- A senhora nunca quis traduzir meu sonho. Esse foi o motivo pelo qual fui à procura da quiromante de San Dellot – Disse com a cabeça baixa.

- Menino ingênuo, e se alguém o tivesse reconhecido? – Perguntou. Mudara completamente o semblante – O que lhe aconteceria? – Disse enquanto cortava uma fatia de pão.

Ela estava certa. Obviamente não estaria aqui contando esta história se isso realmente tivesse acontecido naquele dia. O ser humano tem certa tendência a procurar o perigo. Quando estamos sentenciados a viver tal situação não existe o que fazer para impedir.

- Eu não sei Vovó – Claro que sabia. Apenas não queria prolongar a conversa. Minutos de dialogo com Leoni poderia significar uma vida inteira de inimizade.

- Às vezes eu me pergunto se você realmente conhece o significado da palavra perigo. Você sai de casa com uma menina em busca de aventura. Com que finalidade? – Leoni abria os braços em sinal de questionamento – Apenas para satisfazer uma vontade pessoal - Ela mesma respondera a pergunta.

Era óbvio que algo me afligia e ela sabia disso.

- Você não deve ter pensado, em nenhum momento, no bem da Legião. Apenas em seus próprios desejos – Leoni dizia em tom de provocação.

- Claro que não. Sempre me preocupo com os membros da Legião – Mentira. Eu queria conhecer o mundo e a Legião era como um fardo para mim. No entanto, era certo, eu deveria me mostrar interessado pelos assuntos da Legião se quisesse não ser incomodado.

- Eu acredito em você, menino. Mas suas atitudes não condizem com o que realmente esperamos de você – Toda essa pressão me deixava ansioso e me fazia perder o sono. O que realmente esperavam que eu fizesse?

- Me desculpe Vovó. Isso não vai mais acontecer – Prometi a Leoni.

- Hoje vou à cidade de Visávia conversar com a Família Penesus. Está havendo alguns problemas e conflitos com os bruxos locais e por isso convocaram-me a uma reunião de emergência – Nossa mansão, apesar de grande, era deslocada das cidades. Visávia era uma cidade distante e levava, pelo menos, umas seis horas de viagem de charrete. Algo muito intrigante deveria ter acontecido para que Leoni se retirasse em direção a esta cidade.

- Não se preocupe, não sairei de casa – Nem podia. Na parte externa da casa havia diversos sentinelas. Quando Leoni resolvia ir à cidade, convocava centenas de guardas. Era a única forma de deixar o ninho sem muitas preocupações.

- Seus pais virão aqui mais tarde, portanto apresse-se em terminar seus estudos – Eu morava na mansão com minha avó enquanto meus pais moravam em Caluíta, cidade vizinha a San Dellot – Quando finalizar pode ir brincar no jardim.

Horas se passaram desde que comecei a leitura do livro dos elementos. Já estava cansado de estudar. Precisava fazer algo que me relaxasse. O sono tomava conta e eu mal podia me concentrar.

-Desse jeito eu nunca terminarei de ler este livro – O livro era o terceiro da coleção Elemental que minha avó havia conseguido. No entanto, apenas minha família tinha acesso a ele. Nele continha os segredos da 
manipulação Elemental com base na energia física do indivíduo.

Na mesa grande e retangular, com diversos livros abertos, tinha um copo de vidro e água em seu interior. Parecia-me um momento ideal para brincar com os elementos.  Estiquei os braços e segui as instruções do livro.

São quatro etapas para se materializar o imaterial. Na primeira você deve esvaziar a mente de qualquer interferência externa. Deve existir apenas você e o objeto. Na segunda etapa deve-se identificar o objeto a fim de estabelecer um vinculo com o mesmo. Na terceira, é necessária a ausência do tempo e do espaço. No quarto, o mais importante, deve existir a união do espírito e do corpo.

Não me parecia muito fácil. Mas eu tentei mesmo assim. Embora eu já houvesse realizado algumas magias, ainda não possuía experiência com magia no plano físico.

Tecnicamente era mais complicado.

O copo começou a chacoalhar e a água a se mover. Eu queria que o elemento flutuasse em gota. Mas consegui apenas que ele se agitasse. Já era um começo.

Os magos elementares eram ativos de batalha. Os magos negros, bem, nem preciso  comentar. Enquanto que os magos brancos eram passivos e utilizados nas defesas. Eram verdadeiros escudos contra as forças das trevas. Geralmente um bruxo era dotado de apenas uma qualidade de magia, porém, em raros caros, as qualidades coexistiam, ou seja, haviam bruxos que eram beneficiados com duas qualidades mágicas.

Assim como existiam Legiões de elementares e de magia branca, também eram comuns as Legiões de bruxos que se utilizavam de magia negra. Causadoras do câncer espiritual.

Minhas tentativas foram interrompidas por uma visão repentina. Vi seis pessoas invadindo a mansão.
- Mesmo com esse contingente de guardas isso seria possível? – Refletia em pensamento – Devo avisar Juan imediatamente.

Em disparada atravessei metade da mansão até encontrar meu guarda-costas.

- Juan – Lancei um grito ofegante – A casa está sendo invadida.

- Tem certeza disso, Lucius?

- Absoluta. Acabei de ter uma visão. Eles conseguirão entrar na mansão.

- Impossível – Disse pasmado – Não tem como acontecer esta invasão.

Nem havia dado tempo de Juan terminar a frase quando um guarda bateu às portas dizendo.

- Senhor, estamos sendo atacados. São seis homens que entraram pelos portões dos fundos.

- Mas como isso é possível? – Juan ficou impressionado com a audácia dos invasores – Não devem ser bruxos comuns. Devem ser Grannis – Concluía em resmungos.

Mais uma vez ouvia aquela palavra. Grannins.

- O que será que querem aqui? – Perguntava a mim mesmo.

- Quero todo mundo lá fora. Eles não devem entra na casa – Era uma ordem dada por Juan.

- Lucius, faça exatamente o que vou lhe dizer – Ajoelhou-se e com as mãos em meus ombros pôs-se a falar 

– Corra para seu quarto e tranque a porta. Esconda-se no esconderijo. Tudo vai acabar bem.

- Esta bem, Juan – nunca o havia visto daquele jeito. Seus olhos estavam amarelados e brilhosos.

Dada a ordem comecei a correr em direção ao meu quarto.


Uma batalha estava para começar e eu a perderia.  

sábado, 14 de setembro de 2013

8º capítulo
O Vidente


O vidente pegou minha mão e me disse que poderia ler o meu futuro. Confesso que fiquei impressionado com seu desempenho.

Embora eu pudesse ver o futuro, ele ainda tinha razão, não podia ver o meu.

- Leia – disse a ele estendendo minha mão esquerda. Ele gargalhou como se eu tivesse cometido algum delito.

- Eu não leio mãos, meu jovem mago. Interpreto sonhos. Mas posso lhe assegurar que você tem um grande futuro pela frente. Digo isso por já ter interpretado o seu.
Dizendo isso ele começou a decifrá-lo.

- Quando você entra no grande salão e vê o altar, se depara com três itens posicionados no centro da mesma.

Nos lados direito e esquerdo existem três candelabros que brilham em tons de amarelo e um central, maior, que brilha mais forte e em tons de branco.

Aquilo era impressionante, nunca tinha visto alguém que conseguisse realmente adivinhar o que eu estava pensando de fato, quem diria então que pudesse compartilhar de um sonho, algo tão particular.

- Talvez seja um dom melhor que o meu – pensei enquanto ele falava.

- As velas mais fracas simbolizam seus amigos que lhe servirão no decorrer de sua vida, mas por crepitarem em tons de amarelo, digo-lhe, tenha muito cuidado com eles. Poderão te trair.

Disso eu já sabia, havia visto no futuro dos meus criados que um dia me trairiam, só não tinha visto ainda todos os detalhes.

- O candelabro maior indica que lhe aparecera uma pessoa mais forte, talvez não em poder ou dom, mas sim em amor e compaixão. Esta lhe mostrara o caminho a encontrar seu verdadeiro objetivo. Os itens que você vê em seus sonhos, a esfera com desenhos, o livro dourado sem escritas e o cálice cheio de água, indicam o seu verdadeiro desejo.  Estes, somente você poderá encontrar os significados, nem mesmo eu vejo o que de fato são. Mas digo-lhe mais uma vez que seu caminho será tortuoso e cheio de traições.

- Minha avó – pensei – não sei ao certo o que ela está tramando, mas sei que não é bom, caso contrario ela contaria. 

O homem brincou com suas catas passando-as de um lado para o outro em seus dedos longos e finos. Puxando a lateral da boca num sorriso sagas continuou.

- Meu jovem. Vejo que já encontrou o principio de seus grandes problemas.

Eu realmente estava tão impressionado com a astúcia do vidente e queria saber cada vez mais.

- Agora vamos, Lucius. Realmente está na hora de irmos para casa – disse Elga me puxando pelo braço e eu, sem reclamar, obedeci.

- Até muito próximo, Lucius e Elga. Até muito próximo! - Dizia o homem com aquele ar de mistério. Suas pernas cruzadas e aquele sorriso no rosto. Segurava com o dedo o chapéu ainda na cabeça e guardava as cartas no bolso de sua calça lentamente.

          De longe ainda podia ver a silhueta do homem que em tão pouco tempo me contara quase tudo sobre minha vida.

- Não acredito que aquele homem era um vidente! – Elga era sempre muito cautelosa. Temia os videntes por saberem alem de sua compreensão. Preferia ser surpreendida pelo futuro e não saber como seria.
Em certo ponto Elga tinha razão. Quando se olha para o futuro ele deixa de ser. Muda. E por este motivo 

Elga aprendera a não mais burlar as regras.

- Lucius, não quero que aconteça novamente – disse enquanto fazia expressão de triste.

- Não acontecerá – Abracei-a e seguimos para casa.




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

7º capítulo
A Quiromante


- Senhora Grandeth – Berrou Elga quando entramos em uma barraca situada no centro do comercio.

Depois de ver a Dama Negra naquele estabelecimento fiquei com receio de andar pela cidade. 

Haviam muitas pessoas que dariam tudo para me ver morto. Mas ninguém queria isso mais do que ela.

- Senhora Grandeth – Mais uma vez soltando a voz. Elga me puxou para dentro. Com passos rasos adentramos na tenta colorida cheia de parafernálias penduradas nas cordinhas de algodão. Deveriam servir para fazer barulho quando o vento soprasse. No centro da tenda havia uma mesa redonda de madeira rústica coberta com uma toalha de desenhos geométricos e, no centro da mesa, uma bola de cristal. Ao lado tinham cartas de tarot distribuídas já em intenções de leitura. Havia também um aparador adornado de pedras de quartzo de todas as cores e cristais. Existia um cheiro muito familiar, o de incenso. Era sândalo, minha essência favorita.

- Acho que ela não esta aqui, Elga - Disse a ela – O que são essas coisas? – Referia-me as parafernálias penduradas. Algumas de bambu, outras de pedras.

- Minha mãe disse que essas pedras coloridas penduradas servem para espantar maus espíritos e manter o recinto harmonioso.

- É muito bonito mesmo esse som. Assemelha-se a sinos. Gosto de sinos – Os sinos devem ter algum poder sobre minha capacidade de me concentrar - Na verdade, toda vez que ouvia o som de um sino me sentia com certa tranqüilidade. Como se eu tivesse dopado por drogas.

- Verdade. Parece que a senhora Grandeth não está - Disse Elga, depois de cuidadosamente vasculhar a barraca com seus olhos - Eu disse para virmos logo para cá. Mas não, você tinha que fica olhando aquela luta sem sentido, não é Lucius? – Estava furiosa. Empinava o nariz e dobrava as sobrancelhas – Vamos embora antes que nosso castigo, por termos fugido, se estenda por meses de reclusão em nossos quartos.

Baixei a cabeça com um aceno positivo. Elga estava certa. Assim que minha avó descobrisse me deixaria de castigo por longo tempo em meu quarto.

Já nas ruas de San Dellot, eu e Elga andávamos com pressa a caminho da mansão. Com nosso objetivo frustrado não nos restava outra coisa a não ser voltarmos e aceitar o castigo.

- Droga Lucius - Resmungava Elga – Eu não acredito que viemos ate aqui para voltarmos de mãos abanando para casa.

- Me desculpe Elga.

- Esta tudo bem, no fundo eu também queria saber do que falavam quando envolveram o nome da sua família naquela briga. Só estou assim por não termos conseguido, mais uma vez, saber do que se trata esse maldito sonho que te perturba a muito tempo.

- O que esta havendo com vocês crianças? – Uma voz estranha soou mais alto na multidão. Era um homem estranho com aparência esquisita. Possuía queixo grande, olhos negros e pintados com a cor preta. Na cabeça um chapéu do tipo cartola e no rosto, abaixo do nariz grande e pontudo, havia um bigode fino. Usava roupas colorida e nos pés sapato de bico. Assemelhava-se a um palhaço. Mas sem circo. 

- Vamos Lucius, não de atenção a este homem. Não o conhecemos - Viramos a fim de continuar com o percurso. Foi quando o homem se dirigiu a nós mais uma vez.

- Elga Banglynneet. Seu nome, não é? Tem um futuro promissor cheio de feitos incríveis – O homem sacou do bolso um maço de baralhos e começou a fazer truques passando-as de um lado para o outro em seus dedos grandes e finos. Tinha um sorriso assustador e dois dentes de ouro, o que o deixava ainda mais sinistro.

Elga parou com os ombros altos. Olhava para baixo e não entendia como aquele homem sabia seu nome. Tentava buscar em sua memória relatos que provassem que ela o conhecia. Mas nada encontrara.

- Como sabe meu nome? - Certas horas, Elga parecia-se com uma predadora infernal. Aqueles olhos cor de mel, quando fixados fortemente em um objetivo, me davam cala-frios.

- Ora minha cara. Andas com um prodigo que lê o futuro, mas não reconhece um adivinho quando o vê? Sou um quiromante. Estou aqui para servi-los - Disse o homem que emanava uma energia de cor azul cinzento.

- Qual o seu nome, senhor? - Perguntei a ele depois de ver que Elga se calara.

- Me chamo Ricco Maturn. Posso lhe ajudar com seus sonhos, pequeno Lucius – fez sinal de reverencia prostrando a cabeça para baixo, uma mão nas costas e outra apontada para nós – Afinal de contas, o que você fará no seu futuro também é de meu interesse.

- Como sabia que eu tinha um sonho e como nos encontrou? - Fiquei curioso com aquela historia de adivinho. Seu dom se assemelhava ao meu e eu queria ver mais.

- Tive um sonho onde apareceram dois pombos que pousavam nesse lugar, traziam consigo bilhetes de recados nas patas. Um deles continha seu nome e o outro o de Elga. Os pombos começaram a bicar os farelos de pães que eu jogava. Depois disso, entendi que viriam para cá e que eu deveria ajudá-los.

- Interprete de sonhos. Mas por que se diz adivinho? – Finalmente Elga quebrara o silencio em que se refugiava.

O homem gargalhou com voz grossa e assustadora.

- Simplesmente porque adivinho as coisas minha cara pequenina – começava ai um impasse.

- Diga algo a meu respeito, senhor Ricco – Resolvi testá-lo. O homem olhou fixamente meus olhos e contraiu a pupila, parecendo buscar algo em meu interior. Percebi que revirava minha mente em busca de detalhes. Suspeitava que pudesse ler mentes. E não me enganei.

- Menino medroso. Tem poucos amigos. Existe um problema entre você e sua avó, talvez vocês não se entendam muito bem. Vieram em busca da quiromante da tenda central, mas não a encontraram – ele revirou os olhos deixando-os brancos. Buscava mais fundo – Posso ver seu futuro, destemido encontrara em seu caminho um homem sem face que lhe servira e depois lhe destruíra.

- Isso todos já sabem, até mesmo a aldeia mais distante sabe sobre a família Wagener. Essas coisas que você esta revelando não nos surpreende em nada, senhor – Elga repreendia aparentemente inquieta com a situação.

- Mencionei sobre sua capacidade de prever o futuro, mas não sobre algo que somente vocês dois sabem. Lucius não pode prever o próprio futuro – gargalhou mais uma vez. Estava com as sobrancelhas inclinadas para o nariz indicando sagacidade em seu olhar.

Permanecemos calados por alguns segundo. Era verdade. Ninguém sabia deste detalhe.

- Mas como este homem poderia saber disso? – Questionava Elga mentalmente. Eu estava ligado nos sentimentos dela. Por isso, para mim era fácil saber o que pensava.

- Seus métodos são interessantes, jovem Lucius. Utiliza-se dos chegados para saber de seu futuro. Sabendo o que lhes acontecerão seria fácil supor o que causaria em sua vida. A lei da ação e reação. Certo? – Ele realmente tinha razão. Eu estava sempre um passo a frente dos inimigos, e previa seus movimentos, desta forma tomava minhas decisões com base no que fariam. Para evitar ou ajudá-los.

- Por que você não me disse que ele apareceria? – Perguntou Elga sussurrando em meu ouvido.

- Porque não o vi – respondi – Ele não tem más intenções, não é de sua vontade nos machucar, do 
contrário eu já teria previsto sua aparição.


- Não estou sentido boas vibrações disso tudo. Acho que devemos ir embora – Elga parecia estar ansiosa.

***


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

6º capítulo

San Dellot




A manhã ainda estava nublada.

Três horas haviam se passado desde o café da manhã. Minha Avó e os Banglynneet ainda não haviam saído da mansão, e algo me dizia que não sairiam tão cedo.

Juan nos levou ate o chafariz no centro do jardim no fundo da mansão. Muito raramente eu passava por aquele local.

Elga mexia em sua bolsa preparando algo. Ouvia barulhos de papel sendo amassado. Olhou-me, com os lábios contraídos e cabeça baixa, e me fez novamente um aceno com a cabeça. Entendi que se tratava da distração que havia mencionado anteriormente.

- Juan, você sabia que o sol guarda muitos mistérios mágicos? - Iniciei uma conversa com Juan que me parecia muito distante.

- Claro Lucius. Eu não sou Elemental, mas aprendi algumas coisas na escola - Respondera com um leve sorriso no rosto. Seus dentes eram brancos e lhe proporcionava um sorriso lindo, encantador, assim como seus olhos esverdeados e sua pele fina e branca. O vento lhe passava pelos cabelos louros que dançavam a melodia que ninguém podia ouvir.

- O que sabe de magia, Juan? - Perguntei curioso.

- Sunus tetrôity - Elga sussurrou em seu ouvido um estranho encantamento.

- O que fez com ele Elga? - Perguntei desesperado.

- Tem horas que você me surpreende com suas capacidades, mas em outras se parece tanto com um menino normal. O fiz adormecer, por isso pedi que o distraísse.

- Onde aprendeu isso? - Perguntei assustado.

- Esses dias eu vi minha mãe lendo seu Grimório e a acompanhei, sem que ela percebesse, até o seu esconderijo. E veja só, aprendi algo interessante.

- Você roubou o livro de sua mãe?

- É disso que estou falando, um menino normal. Lucius, eu apenas o li e depois devolvi para o mesmo lugar. Ontem quando nos falamos eu já sabia que viríamos ao café da manhã e que certamente a conversa dos adultos nos levaria a Juan que por sua vez nos traria para fora da mansão.

- Bem pensado, Elga. Agora, o que faremos? - Elga era muito perspicaz. Entendia de antemão as insinuações das pessoas numa forma de interpretação comportamental.

- Vamos - Pegou em meu braço e me puxou bruscamente pelo corredor de folhagens do jardim.

- La está. Duas sentinelas no portão principal – Nos escondemos atrás de uma arvore com formato de cavalo. Elga esticava o pescoço enquanto descrevia o que acontecia.

- Eles estão vindo em nossa direção, fique preparado.

             E eu concordava.

- Lá vamos nós. Câminy La Tuna - Era mais um encantamento que provavelmente houvera lido no Grimório de sua mãe tempos antes. As sentinelas caíram no chão sem sequer saber o que os atingiram.

- É desse jeito que sua avó quer proteger sua casa? - Elga perguntava gargalhando e correndo loucamente pelo caminho de pedras que fazia a estrada para San Dellot.

- Você está me assustando com isso tudo que anda fazendo, menina - Comecei a brincar com a situação, mas sem desprezar suas proezas. No fundo sentia certa admiração pela sua capacidade de pensar rápido e aprender magia.

San Dellot era perto da mansão, deveria ficar a uns vinte minutos de charrete. Levamos uma hora para chegar à cidade a pé. Deveríamos ser ligeiros, pois, logo perceberiam nossa ausência e mandariam soldados por todos os cantos. Tínhamos que nos apressar.

Entramos na cidade pelo portão principal.

San Dellot era uma cidade de comércio e por isso era muito movimentada em todas as horas do dia.

Ao sol, os comerciantes com suas quitandas, e até mesmo com panos estendidos nas calçadas, vendiam comida, vinhos e alguns armamentos. Carroças cheias de legumes transitavam pelas ruas e cavaleiros passavam de um lado para outro com seus belos trajes. Havia estábulos por todos os cantos, tabernas. Era um alvoroço total.

De noite, funcionava o trafico de escravos, bordeis e tabernas que nunca se fechavam.

- Venha. É por aqui - Elga me guiava em meio a tanta gente.

Eu jamais havia saído tão longe assim sem que minha avó estivesse comigo. Ela sempre me dissera que podia ser perigoso andar sozinho pelas cidades. Mas naquele dia eu entrei em uma aventura que jamais esqueceria.

- Aqui. Venha, está muito devagar. Deste jeito a mulher já terá ido embora quando chegarmos lá - Brincava Elga enquanto corríamos trombando pisoteando os pés das pessoas.

Ouvimos gritos e grasnos de lutadores. Com a cabeça girando de norte a Sul notamos uma taberna onde ocorria uma briga. Um homem fora lançado por um bárbaro louro com roupas rasgadas que, caindo em nossa frente, obstruindo nossa passagem. Paramos.

- Seu Grannin desgraçado. Volta pra sua família, bastardo - Granava o homem da taberna - Você já nos deve muito. Aqui já não tem lugar para você.

- Eu quero terminar a batalha. Quero vencer o Grannin Wagener.

Aquela frase me fizera atentar-me ao caso do homem e me despertara gigante curiosidade.

- Quero entrar aqui - Pedi a Elga.

- Claro que não, Lucius - Esbravejou me apertando o braço - Vamos sair daqui imediatamente.

Mas de nada adiantou. Entrei na taberna sem que ninguém me notasse e assisti ao embate que acontecia ali.

Ouvi que eram magos renegados que duelavam naquelas tabernas para mostrarem quem era mais forte. Lutas físicas e mentais aconteciam sempre que um deles desafiava.

- Uma arena - Sussurrei a mim mesmo.

- Verdade, agora que você já viu vamos embora - Mais uma vez Elga me puxava pelo braço. Mas eu não estava disposto a sair dali. Queria ver como era.

Os dois homens se posicionaram na arena. Numa arena circular estavam homens de todas as terras. Desde mendigos a comerciante que iam apreciar os duelos de magos.

O homem que acabara de ser jogado para fora estava na arena novamente. Aparentemente inclinado a finalizar o duelo. O outro, maior e representando ser mais forte fisicamente, sacou uma arma que assemelhava-se a uma espada bárbara. Seu impacto além de fazer um profundo corte no adversário o jogaria longe, por ser pesada. O outro por sua vez se mantivera inabalável mesmo com a ameaça. Era menor, mas parecia mais ágil.

O espadachim avançou em velocidade em direção ao desafiador e levantando a pesada espada preparou um ataque para abatê-lo com apenas um golpe.

Surpreendentemente o homem magro esquivou-se e sacou uma adaga das botas que lhe servira para acertar o rival. O golpe inferido não fora mortal, apenas um arranhão no peito.

- Miserável - Sua voz ressoava como rugido de um leão - Machucou-me com sua faquinha.

Os outros começaram a rir. Levantavam canecos de vinho e brindavam a luta.

- Não o conheço - Confidenciei a Elga que estava ao meu lado.

- Nem eu. Mas agora já chega, vamos sair daqui imediatamente.

Os homens mais uma vez se envolveram num outro ataque.

- Espere Elga. Essa energia eu conheço - Disse a Elga procurando com a cabeça em meio a multidão de bárbaros.

Do outro lado da taberna estava um rosto conhecido, embora a tivesse visto apenas uma vez sua energia era inconfundível.


- Aquela moça do outro lado, eu já a vi na mansão. A três anos atrás eu estava no jardim com meus guardiões quando a vi entrar escoltada por dois guardiões. Minha Avó pretendia vê-la.

- Ora se não é a Dama Negra. Desertora - Desdenhou Elga.

- Acho que agora está na hora de sair daqui. Ela não esta aqui para se divertir. Sinto ameaça em sua energia – Falei a Elga.
Eu sentia em sua energia muito ódio. Estava claro, o que motivava esse ódio era intimamente ligado a família Wagener. Pouco depois de seu aparecimento na mansão, soube que havia sido expulsa da Legião, porem, não fazia idéia do motivo que promoveu esse retalhamento.

- Concordo plenamente. Temos que chegar logo a barraca da quiromante – Elga me dizia com expressão de medo.