9º capítulo
Uma Invasão
Três semanas se passaram desde
que fomos a San Dellot.
Trancado em meu quarto eu cumpria
um castigo repleto de estudos sobre magia. Enfim, o último dia de exílio
chegara.
A manhã estava brilhante. O sol,
suntuoso, declarava que o dia seria calmo e caloroso. Quem dera tivesse sido.
- Lucius, desça – Estava na hora do café da manhã. Minha Avó
exigia que eu fosse ao salão e que a acompanhasse em sua refeição.
Minutos depois que sentei a mesa
a velha Leoni introduziu a conversa.
- Sente-se feliz por ter desobedecido minhas regras? – Dizia
com tom de ironia.
Baixei a cabeça em sinal de
respeito.
- Apenas queria saber sobre meu sonho.
- E encontrou alguma coisa na cidade? – Insistia Leoni.
- Um vidente – Respondi. Ela gargalhou caçoando-me.
- Tantos videntes em nossa legião e você procurando um na
Cidade dos Pervertidos - Leoni referia-se a cidade desta forma devido à presença
de Grannins e suas batalhas constantes. A cidade era um lugar perfeito para o
encontro de renegados.
- A senhora nunca quis traduzir meu sonho. Esse foi o motivo
pelo qual fui à procura da quiromante de San Dellot – Disse com a cabeça baixa.
- Menino ingênuo, e se alguém o tivesse reconhecido? –
Perguntou. Mudara completamente o semblante – O que lhe aconteceria? – Disse
enquanto cortava uma fatia de pão.
Ela estava certa. Obviamente não
estaria aqui contando esta história se isso realmente tivesse acontecido
naquele dia. O ser humano tem certa tendência a procurar o perigo. Quando
estamos sentenciados a viver tal situação não existe o que fazer para impedir.
- Eu não sei Vovó – Claro que sabia. Apenas não queria
prolongar a conversa. Minutos de dialogo com Leoni poderia significar uma vida
inteira de inimizade.
- Às vezes eu me pergunto se você realmente conhece o
significado da palavra perigo. Você sai de casa com uma menina em busca de
aventura. Com que finalidade? – Leoni abria os braços em sinal de
questionamento – Apenas para satisfazer uma vontade pessoal - Ela mesma
respondera a pergunta.
Era óbvio que algo me afligia e ela
sabia disso.
- Você não deve ter pensado, em nenhum momento, no bem da Legião.
Apenas em seus próprios desejos – Leoni dizia em tom de provocação.
- Claro que não. Sempre me preocupo com os membros da Legião
– Mentira. Eu queria conhecer o mundo e a Legião era como um fardo para mim. No
entanto, era certo, eu deveria me mostrar interessado pelos assuntos da Legião
se quisesse não ser incomodado.
- Eu acredito em você, menino. Mas suas atitudes não
condizem com o que realmente esperamos de você – Toda essa pressão me deixava
ansioso e me fazia perder o sono. O que realmente esperavam que eu fizesse?
- Me desculpe Vovó. Isso não vai mais acontecer – Prometi a
Leoni.
- Hoje vou à cidade de Visávia conversar com a Família
Penesus. Está havendo alguns problemas e conflitos com os bruxos locais e por
isso convocaram-me a uma reunião de emergência – Nossa mansão, apesar de
grande, era deslocada das cidades. Visávia era uma cidade distante e levava,
pelo menos, umas seis horas de viagem de charrete. Algo muito intrigante
deveria ter acontecido para que Leoni se retirasse em direção a esta cidade.
- Não se preocupe, não sairei de casa – Nem podia. Na parte
externa da casa havia diversos sentinelas. Quando Leoni resolvia ir à cidade,
convocava centenas de guardas. Era a única forma de deixar o ninho sem muitas
preocupações.
- Seus pais virão aqui mais tarde, portanto apresse-se em
terminar seus estudos – Eu morava na mansão com minha avó enquanto meus pais
moravam em Caluíta, cidade vizinha a San Dellot – Quando finalizar pode ir
brincar no jardim.
Horas se passaram desde que
comecei a leitura do livro dos elementos. Já estava cansado de estudar.
Precisava fazer algo que me relaxasse. O sono tomava conta e eu mal podia me
concentrar.
-Desse jeito eu nunca terminarei de ler este livro – O livro
era o terceiro da coleção Elemental que minha avó havia conseguido. No entanto,
apenas minha família tinha acesso a ele. Nele continha os segredos da
manipulação Elemental com base na energia física do indivíduo.
Na mesa grande e retangular, com
diversos livros abertos, tinha um copo de vidro e água em seu interior.
Parecia-me um momento ideal para brincar com os elementos. Estiquei os braços e segui as instruções do
livro.
São quatro etapas para
se materializar o imaterial. Na primeira você deve esvaziar a mente de qualquer
interferência externa. Deve existir apenas você e o objeto. Na segunda etapa
deve-se identificar o objeto a fim de estabelecer um vinculo com o mesmo. Na terceira,
é necessária a ausência do tempo e do espaço. No quarto, o mais importante,
deve existir a união do espírito e do corpo.
Não me parecia muito fácil. Mas
eu tentei mesmo assim. Embora eu já houvesse realizado algumas magias, ainda
não possuía experiência com magia no plano físico.
Tecnicamente era mais complicado.
O copo começou a chacoalhar e a
água a se mover. Eu queria que o elemento flutuasse em gota. Mas consegui
apenas que ele se agitasse. Já era um começo.
Os magos elementares eram ativos
de batalha. Os magos negros, bem, nem preciso comentar. Enquanto que os magos brancos eram
passivos e utilizados nas defesas. Eram verdadeiros escudos contra as forças
das trevas. Geralmente um bruxo era dotado de apenas uma qualidade de magia,
porém, em raros caros, as qualidades coexistiam, ou seja, haviam bruxos que
eram beneficiados com duas qualidades mágicas.
Assim como existiam Legiões de
elementares e de magia branca, também eram comuns as Legiões de bruxos que se
utilizavam de magia negra. Causadoras do câncer espiritual.
Minhas tentativas foram
interrompidas por uma visão repentina. Vi seis pessoas invadindo a mansão.
- Mesmo com esse contingente de guardas isso seria possível?
– Refletia em pensamento – Devo avisar Juan imediatamente.
Em disparada atravessei metade da
mansão até encontrar meu guarda-costas.
- Juan – Lancei um grito ofegante – A casa está sendo
invadida.
- Tem certeza disso, Lucius?
- Absoluta. Acabei de ter uma visão. Eles conseguirão entrar
na mansão.
- Impossível – Disse pasmado – Não tem como acontecer esta
invasão.
Nem havia dado tempo de Juan
terminar a frase quando um guarda bateu às portas dizendo.
- Senhor, estamos sendo atacados. São seis homens que
entraram pelos portões dos fundos.
- Mas como isso é possível? – Juan ficou impressionado com a
audácia dos invasores – Não devem ser bruxos comuns. Devem ser Grannis –
Concluía em resmungos.
Mais uma vez ouvia aquela
palavra. Grannins.
- O que será que querem aqui? – Perguntava a mim mesmo.
- Quero todo mundo lá fora. Eles não devem entra na casa –
Era uma ordem dada por Juan.
- Lucius, faça exatamente o que vou lhe dizer – Ajoelhou-se
e com as mãos em meus ombros pôs-se a falar
– Corra para seu quarto e tranque a
porta. Esconda-se no esconderijo. Tudo vai acabar bem.
- Esta bem, Juan – nunca o havia visto daquele jeito. Seus
olhos estavam amarelados e brilhosos.
Dada a ordem comecei a correr em
direção ao meu quarto.
Uma batalha estava para começar e
eu a perderia.

