terça-feira, 27 de agosto de 2013

5º Capítulo
O Café da Manhã



- Lucius.

Ainda era de manhã quando Elga me chamara. O céu estava nublado, cinza, carregado.

- Bela manhã - Comentei comigo mesmo.

              Ainda tonto, coloquei os pés nos calçados e fui ao banheiro.

- Lucius - Gritou mais uma vez.

- Já vou. Deixa eu me trocar, Elga - Repliquei.

             Lavei meu rosto e bochechei. Uma manhã comum onde eu, costumeiramente, me olhava no espelho. Devido à falta de sono era notável a presença de olheiras.

- Mais uma noite com esse sonho - Baixando a cabeça, secava o rosto com a toalha de algodão que estava na suíte do meu quarto.

 Minha iniciação foi tão intensa que me deixou as lembranças da visão que tive durante o Efatar. O mesmo sonho. A visão causada pelo estado de êxtase aparecia-me constantemente e se repetia todas as noites num ato de perseguição. O templo, o altar, as relíquias. Mas faltava uma parte do sonho, a Matriz.

Eu não conseguia entender a causa da ausência da Matriz em meu sonho. Se tudo era exatamente como na visão, por que a matriz não aparecia?

- Lucius. Vamos, nossos pais já estão à mesa – gritava Elga do lado de fora.

           Estava na hora do café da manhã.

- Lucius, vem comigo – Ela me segurou firme pelo braço e me levou até o salão na ala norte.

- Pare de correr e sentem-se - Disse minha avó que estava na cadeira na ponta da imensa mesa que se situava no centra do salão. Estavam lá também meus pais juntamente com os de Elga.

- Tudo bem Vovó - Disse sereno.

Elga sorria para mim como se já houvesse começado com o plano da manhã passada. Iríamos à busca da quiromante no mercado de San Dellot. Eu ainda não sabia como faríamos para driblar as sentinelas que nos vigiavam vigorosamente o tempo todo.

- Ta tudo sob controle - Sussurrou ao meu ouvido, quando sentamos lado a lado, dando uma piscadela com o olho esquerdo. Típico de Elga.

           A empregada trouxera frutas e sucos à mesa. Para mim uma deliciosa gelatina.

- Elga, como faremos para sair daqui? - Sussurrei.

- Eu aprendi uma coisa e quero te mostrar - Deu-me um cutucão nos ombros e precipitou uma maçã em sua boca dando várias mordidas.

Enquanto conversávamos baixinho no canto, os adultos trocavam idéias sobre como superariam a crise com a igreja. Pois á poucos dias, haviam queimado uma mulher das redondezas acusada de bruxaria. E de fato, era uma chegada da família e uma bruxa de nossa legião. Isso preocupava meus pais que logo sugeriram nossa saída da França. Alegavam que quando a igreja ligasse os pontos acabaria chegando a nossa família.

Naquela época a Igreja começara cobrar as indulgencias um pouco acima da média. Os Bruxos não se beneficiavam com atitude dos padres. O valor do silencio variava de Casa para Casa. Quanto mais conhecida fosse a família, maior seria a propina paga para que a Igreja as deixassem em paz.

O incomodo de algumas famílias fora tão grado que começaram a questionar a autoridade do Pontifex Maximus. Vieram, então, as investidas contra a Igreja e a discórdia começou a pairar entre as instituições até que um grupo de bruxos finalmente se encorajou e, por carta, sugeriu a redução dos impostos.

No entanto, quando a idéia de redução do pagamento fora proposta, os padres, imediatamente, enviaram seus caçadores em busca dos homens que não “serviam a Igreja” como uma forma de retaliação ao pedido e uma resposta a ser interpretada. Falarei disso mais tarde.
Na mesa, minha avó se irritara. Nos atentamos a sua conversa.

- Eu não deixarei que esses “santos” se beneficiem de nossos negócios - Costumava chamar os padres de santos de forma irônica, talvez para expressar sua sagacidade em situações sínicas como cobrar propina de famílias para que continuem exercendo a magia.

- Isso é um insulto, já nos levam quase a metade de nossos lucros no campo, agora querem também nossas terras - Disse enfurecida Dálila Banglynneet.

- Tive, ontem mesmo, uma reunião com o Grão mestre do conselho e sua posição, quanto as nossas suplicas, não nos fora favorável. Acho que está na hora de começarmos a pensar por nos mesmos - Disse minha avó olhando para nós.

- Lucius e Elga ainda são crianças - Meu pai tomava a palavra.

- Eu sei Thomas, mas acho que já devemos lhes ensinar sobre o conselho e sua grandeza. Pois mais tarde eles quem terão a responsabilidade de terminar o que começaremos.

- Eu acho que ainda não está na hora, senhora Leoni - Dizia minha mãe apreensiva.

Eu não entendia bem o que queriam dizer com tudo aquilo, e Elga percebera, também, que algo não estava certo. Aquela não era uma reunião rotineira destinada apenas a negócios de família.

- Lucius, o que estão sentido? - Sussurrou mais uma vez se portando em minha direção.

- Eu to tentando ver, mas as energias estão neutras, como se apenas nós dois estivéssemos aqui na sala. Talvez seja minha avó que esteja fazendo isso exatamente para que eu não consiga Lê-los.

- Eu achava que isso era impossível pra você! - Reclamou retorcendo o nariz e apertando a sobrancelha.

- Eu também, não sei como ela faz isso. Mas faz. De alguma forma ela maquia a energia dos seletos e as deixa sem expressão. Você sabe que a velha Leoni é precavida até mesmo com os seus - Disse no sue ouvido.

- O nosso tempo esta se estreitando e logo nem mesmo nossas propinas lhes servirão mais. Portanto, devemos nos organizar - Esbravejou minha avó batendo com o punho na mesa.

- Eu não acrescento nem dez anos para que isso aconteça – Joseph tomara a palavra.

- Meu caro Joseph Banglynneet - Cortava Leoni sem mais delongas - Em dez anos teremos a mais mortal maquina de guerra que os bruxos dessa época jamais viram. Isso é tempo suficiente para que nossas crianças se tornem poderosos e tomem a frente da causa. Estou certa de que eles farão o que for preciso para manter nossa discrição. Continuaremos nossas vidas sem preocupações depois disso. É questão de tempo.

- Eu tenho um plano e quero compartilhá-lo com vocês - Disse minha avó cruzando os dedos e apoiando o queixo contra as mãos que eram sustentadas pelos cotovelos encostados na mesa.

- Lucius, Elga, vão brincar agora. Juan esta a espera de vocês no saguão da casa – Leoni, implacável, se virara para trás apontando com o indicador a porta onde estava o guardião.

- Tudo bem vovó - Falei sem reclamar. Embora tivesse curioso em saber qual era o plano de minha avó.

- Vamos Lucius - Elga pegara em minhas mãos e me puxara ate a porta. Entramos e saímos correndo pelo salão da ala norte.

            La fora, no jardim, onde eu costumava ficar sentado por horas meditando, nos colocamos e começamos a conversar.

- E agora Elga, o que faremos?

- Fique tranqüilo Lucius, estamos onde deveríamos estar. Apenas distraia o guardião até que eu finalize – Entendi o que ela queria dizer, mas não sabia o que iria fazer. Mesmo assim resolvi seguir seu plano mirabolante.

- Juan, você sabe de que plano minha avó falava no salão? - Perguntei ao guardião.

- Claro que não, Lucius. Eu tenho um papel muito importante aqui na Legião, mas não por isso que saberei de tudo que sua família pretende. Mas posso lhe garantir que é para seu bem.

Juan confiava cegamente na Legião que era regida pelos Wageners. E por algum motivo ele se tornara meu guardião. Houve épocas em que eu tinha ate cinco guarda costas. Mas depois de sua chegada a Legião, apenas ele me guardara.


 


sábado, 3 de agosto de 2013


4º capitulo
O Plano

Três anos se passaram após o alvorecer de minha magia, o dia de minha iniciação. Muitas coisas mudaram depois disso. Eu havia entrado num treinamento intenso com Leoni que passou a ser minha tutora. Estudei os três tipos de magias mais comuns aos bruxos. Branca, Negra e Elemental. Cada qual com seus atributos específicos. Outrora explicarei seus fundamentos.

Numa manhã de Sábado, acordei circundado de iguarias em nossa mansão. Os anos haviam se seguido, mas as lembranças das palavras da Matriz ainda ecoavam em minha mente.

Homem sério, de poucas palavras e semblante mórbido. Seria eu mesmo numa versão pura. Como, se tínhamos personalidades tão distintas?

 Lembrava-me do sonho, muito real, que me ocorreu durante o Efatar. Jamais esqueceria aquelas imagens. Os candelabros, o livro, as relíquias. O que significava tudo aquilo? Eu ainda não havia compreendido mesmo depois de tanto tempo, mas estava disposto a saber.

Realizei muitos prodígios com meu espírito, era um Bruxo natural. Minhas habilidades apareceram no decorrer dos anos de treinamento e estudos acerca da magia. Com facilidade executava invocações de espíritos, manipulava as energias e fazia diversas outras coisas, difícil para uma criança, o que acabou conferindo a mim a imagem de um fenômeno mágico em nossa Legião. Mas tinha uma coisa que minhas habilidades não me permitiam. Eu não era um bom interprete. E talvez nunca o fosse.

Eu tinha a minha disposição, já com dez anos, o dom da visão e da leitura energética. Mas ainda não sabia interpretar sonhos. E esses, às vezes, me tiravam o sono. Algo me dizia que eram importantes.

Depois daquele dia a Matriz nunca mais se revelara para mim, não por falta de tentativas, todas fracassadas.

Nesse dia, desci as escadas da mansão em direção ao jardim, passei pelo saguão da casa, parei, olhei as belezas entalhadas em madeira e pedra que havia por todos os cantos.

- Minha família é rica e desperdiça com coisas tolas. Resmunguei.

Direcionei-me até a porta principal, que deveria ter a medida de três metros de altura. Descomunal. Minha avó sempre foi precavida e deixava guardas para todos os lados. Sempre tinha um que me seguia o tempo todo.

- Bom dia Juan - Disse ao meu guarda costas.

- Bom dia Lucius. O que vamos fazer hoje jovem mestre?

- Odeio quando me chama assim, sabia?

- É por isso que falo - Disse-me dando gostosas risadas.

- Juan. Sabe onde posso achar uma quiromante?

- Sua avó sabe que pretende aprender previsões de futuro?

- Não é para isso. Estou tendo o mesmo sonho desde que tinha sete anos. Acho que significa alguma coisa.

- Já perguntou para sua avó? Ela é uma das melhores quiromantes de toda a França.

- Já, mas ela disse que não tem importância.

- Então não deve ter importância mesmo, Lucius - Finalizou Juan com ar doce e compreensivo.

- Eu conheço uma ótima, Lucius - Disse uma voz feminina mais distante. Era Elga Banglynneet, minha melhor amiga.

- O que esta fazendo aqui, mocinha? - Perguntou Juan.

- Pode nos deixar a sós por um instante, Juan? Preciso contar a ela algumas coisas - Disse a ele. Embora as ordens emitidas de minha Avó fossem claras, a de nunca me deixar sozinho, Juan sempre me dava espaço.

- Esta bem. Mas não vão aprontar, hein? Se algo lhe acontecer, sua Avó certamente me matará.

Juan era um bom homem e demonstrava isso de forma caridosa. Tratava-me como se fosse seu filho.

- Sabe mesmo de uma quiromante? - Perguntei a Elga num sussurro, pegando-a pelo braço.

- É claro que sim, no contrário não lhe diria nada - Respondeu.

- Mas teremos que sair mais uma vez às escondidas. É no trecho central da cidade. Tem uma barraca lá. Minha mãe sempre visita ela. São muito amigas.

- Certo. Quando podemos?

- Meus pais vieram aqui hoje convocados por Leoni, devem sair a qualquer momento. Podemos ir amanhã - Estava determinada.

- E como faremos isso?  Tenho um guarda costas – Disse apontando para Juan que andava distraído pelo jardim.

- Deixa comigo. Disse sorridente - Quando se tratava de traquinagens Elga Banglynneet era perita no assunto.

- Elga, venha - Chamou a mãe que já estava na porta principal da mansão. Deveriam estar na biblioteca.

- Até amanhã, Lucius - Disse Elga correndo e rodopiando seu longo vestido rosa em saltos marotos.


- Até amanhã, Elga. 



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

3º capítulo

A Essência


O horizonte parecia não ter fim. Era frio e esfumaçado como em noites de neblina. Tudo era escuro, sinistro. Calafrios me estremecia a espinha. Eu andava e nunca encontrava nada, era uma região que eu ainda não havia explorado. Mais parecia um sonho.

- O que é isso, onde estou? - Era o que eu mais me perguntava. Eu estava numa outra dimensão muito parecida com um sonho, aliás, era um sonho. Um outro mundo encontrado num sonho que era diferente. O Efatar poderia acontecer de duas maneiras, de forma consciente ou inconsciente.

O mais comum dos Efatares era o inconsciente. Era possível conversar com espíritos, prever o futuro, ler cartas e diversas outras funções mágicas com este tipo. O que acontecia era que o espírito humano residente daquele corpo transladava as dimensões entrando em contato com outros superiores ou inferiores. Este, por sua vez, ajudava, ou não, esses bruxos a alcançarem seus objetivos, se fossem devidamente ordenados. Essa forma de Efatar se assemelhava as conhecidas invocações espirituais, com a diferença de que o espírito assumia o corpo do usuário. Conhecido pela Igreja como possessão.

O segundo tipo, pouco comum, mas ainda bem popular era o que constituía minha Legião. São os que conseguem manipular a energia em plena consciência. Ele molda a energia sem interferências ou ajudas externas. O tipo de bruxo que minha Avó queria.

Naquele lugar eu me sentia sozinho e as piores recordações me vinham à mente. Uma agonia inexplicável tomava conta do meu espírito drenando minhas forças e me consumindo lentamente. Foi quando vi em minha frente, como que numa ilusão, aparecer do nada um templo. Sem duvidas era uma ilusão. Era tão real, mesmo para um sonho, que por alguns instantes comecei a duvidar que estivesse sonhando. Eu sentia frio, dor, sede e tudo mais. Ambiente propício para uma prisão eterna.  

Minha curiosidade aguçada apontava como a agulha de uma bússola para dentro do templo e, sem sombras de duvidas, eu entraria para saciá-la. Havia um imenso salão dentro do templo que assemelhava- se aquelas antigas igrejas.

No fundo pude notar um altar que tinha em cada lado três candelabros pequenos com velas acesas de fogo amarelo.

- Guarde todas as referências que puder Lucius – dizia a minha Avó sempre que se referia aos Outros Planos – pois podem ser importantes e dignas de interpretação – era o que eu estava fazendo.

 Notei que no meio havia um candelabro maior que tinha uma vela grande que queimava mais forte e que me chamava atenção, provocando um êxtase. Segui a luz até chegar ao altar e nele havia três objetos que reluzia feito ouro. Do lado direito, uma esfera pequena e dourada com desenhos e símbolos semelhantes a impressões digitais. Do outro lado um cálice repleto de água cristalina e no centro, o que mais me chamou a atenção, um livro de capa dourada.

Aproximei-me do livro que se abriu para mim, talvez porque quisesse ser lido e, curioso, comecei a folheá-lo. De fato, me surpreendi quando notei que não havia nada escrito, eram apenas folhas em branco. Não entendi o que acontecia, o livro se abria para mim, mas não queria ser lido.

Resolvi tocar. É da natureza humana querer tatear tudo. Suas páginas eram grossas e lisas. Novamente voltei minha atenção a esfera e a toquei. Quente, era o tato que ela apresentava. Imediatamente seus desenhos se modificaram assumindo outra impressão.

Um forte estrondo ocorreu e as luzes se apagaram. Na escuridão uma explosão luminosa. Vi uma silhueta de homem caminhando em minha direção.

- Quem é você? - Perguntei a ele com receio, pois havia ali uma enorme quantidade de energia.


Um dia estive junto à luz, vivi no mar da imensidão e cavalguei nas auroras. Mas isso não importa jovem Lucius. Eu sou você, sua essência. Mas pode me chamar de Matriz.