5º
Capítulo
O
Café da Manhã
- Lucius.
Ainda era de manhã quando Elga me chamara. O céu
estava nublado, cinza, carregado.
- Bela manhã - Comentei comigo mesmo.
Ainda tonto, coloquei os pés nos calçados e fui ao
banheiro.
- Lucius - Gritou mais uma vez.
- Já vou. Deixa eu me trocar, Elga - Repliquei.
Lavei meu rosto e bochechei. Uma manhã comum onde eu,
costumeiramente, me olhava no espelho. Devido à falta de sono era notável a
presença de olheiras.
- Mais uma noite com esse sonho - Baixando a cabeça,
secava o rosto com a toalha de algodão que estava na suíte do meu quarto.
Minha iniciação foi tão intensa que me deixou
as lembranças da visão que tive durante o Efatar. O mesmo sonho. A visão
causada pelo estado de êxtase aparecia-me constantemente e se repetia todas as
noites num ato de perseguição. O templo, o altar, as relíquias. Mas faltava uma
parte do sonho, a Matriz.
Eu não conseguia
entender a causa da ausência da Matriz em meu sonho. Se tudo era exatamente
como na visão, por que a matriz não aparecia?
- Lucius. Vamos, nossos pais já estão à mesa –
gritava Elga do lado de fora.
Estava na hora do café da manhã.
- Lucius, vem comigo – Ela me segurou firme pelo braço
e me levou até o salão na ala norte.
- Pare de correr e sentem-se - Disse minha avó que
estava na cadeira na ponta da imensa mesa que se situava no centra do salão.
Estavam lá também meus pais juntamente com os de Elga.
- Tudo bem Vovó - Disse sereno.
Elga sorria para mim
como se já houvesse começado com o plano da manhã passada. Iríamos à busca da
quiromante no mercado de San Dellot. Eu ainda não sabia como faríamos para
driblar as sentinelas que nos vigiavam vigorosamente o tempo todo.
- Ta tudo sob controle - Sussurrou ao meu ouvido,
quando sentamos lado a lado, dando uma piscadela com o olho esquerdo. Típico de
Elga.
A empregada trouxera frutas e sucos à mesa. Para mim
uma deliciosa gelatina.
- Elga, como faremos para sair daqui? - Sussurrei.
- Eu aprendi uma coisa e quero te mostrar - Deu-me
um cutucão nos ombros e precipitou uma maçã em sua boca dando várias mordidas.
Enquanto conversávamos
baixinho no canto, os adultos trocavam idéias sobre como superariam a crise com
a igreja. Pois á poucos dias, haviam queimado uma mulher das redondezas acusada
de bruxaria. E de fato, era uma chegada da família e uma bruxa de nossa legião.
Isso preocupava meus pais que logo sugeriram nossa saída da França. Alegavam
que quando a igreja ligasse os pontos acabaria chegando a nossa família.
Naquela época a Igreja
começara cobrar as indulgencias um pouco acima da média. Os Bruxos não se
beneficiavam com atitude dos padres. O valor do silencio variava de Casa para
Casa. Quanto mais conhecida fosse a família, maior seria a propina paga para
que a Igreja as deixassem em paz.
O incomodo de algumas
famílias fora tão grado que começaram a questionar a autoridade do Pontifex Maximus. Vieram, então, as investidas contra a Igreja e a discórdia
começou a pairar entre as instituições até que um grupo de bruxos finalmente se
encorajou e, por carta, sugeriu a redução dos impostos.
No entanto, quando a idéia de redução do
pagamento fora proposta, os padres, imediatamente, enviaram seus caçadores em
busca dos homens que não “serviam a Igreja” como uma forma de retaliação ao
pedido e uma resposta a ser interpretada. Falarei disso mais tarde.
Na mesa, minha avó se irritara. Nos atentamos a sua
conversa.
- Eu não deixarei que esses “santos” se beneficiem de nossos negócios - Costumava chamar os
padres de santos de forma irônica, talvez para expressar sua sagacidade em
situações sínicas como cobrar propina de famílias para que continuem exercendo
a magia.
- Isso é um insulto, já nos levam quase a metade de
nossos lucros no campo, agora querem também nossas terras - Disse enfurecida
Dálila Banglynneet.
- Tive, ontem mesmo, uma reunião com o Grão mestre
do conselho e sua posição, quanto as nossas suplicas, não nos fora favorável.
Acho que está na hora de começarmos a pensar por nos mesmos - Disse minha avó
olhando para nós.
- Lucius e Elga ainda são crianças - Meu pai tomava
a palavra.
- Eu sei Thomas, mas acho que já devemos lhes
ensinar sobre o conselho e sua grandeza. Pois mais tarde eles quem terão a
responsabilidade de terminar o que começaremos.
- Eu acho que ainda não está na hora, senhora Leoni
- Dizia minha mãe apreensiva.
Eu não entendia bem o que
queriam dizer com tudo aquilo, e Elga percebera, também, que algo não estava
certo. Aquela não era uma reunião rotineira destinada apenas a negócios de
família.
- Lucius, o que estão sentido? - Sussurrou mais uma
vez se portando em minha direção.
- Eu to tentando ver, mas as energias estão neutras,
como se apenas nós dois estivéssemos aqui na sala. Talvez seja minha avó que
esteja fazendo isso exatamente para que eu não consiga Lê-los.
- Eu achava que isso era impossível pra você! -
Reclamou retorcendo o nariz e apertando a sobrancelha.
- Eu também, não sei como ela faz isso. Mas faz. De
alguma forma ela maquia a energia dos seletos e as deixa sem expressão. Você
sabe que a velha Leoni é precavida até mesmo com os seus - Disse no sue ouvido.
- O nosso tempo esta se estreitando e logo nem mesmo
nossas propinas lhes servirão mais. Portanto, devemos nos organizar - Esbravejou
minha avó batendo com o punho na mesa.
- Eu não acrescento nem dez anos para que isso
aconteça – Joseph tomara a palavra.
- Meu caro Joseph Banglynneet - Cortava Leoni sem
mais delongas - Em dez anos teremos a mais mortal maquina de guerra que os
bruxos dessa época jamais viram. Isso é tempo suficiente para que nossas
crianças se tornem poderosos e tomem a frente da causa. Estou certa de que eles
farão o que for preciso para manter nossa discrição. Continuaremos nossas vidas
sem preocupações depois disso. É questão de tempo.
- Eu tenho um plano e quero compartilhá-lo com vocês
- Disse minha avó cruzando os dedos e apoiando o queixo contra as mãos que eram
sustentadas pelos cotovelos encostados na mesa.
- Lucius, Elga, vão brincar agora. Juan esta a
espera de vocês no saguão da casa – Leoni, implacável, se virara para trás
apontando com o indicador a porta onde estava o guardião.
- Tudo bem vovó - Falei sem reclamar. Embora tivesse
curioso em saber qual era o plano de minha avó.
- Vamos Lucius - Elga pegara em minhas mãos e me
puxara ate a porta. Entramos e saímos correndo pelo salão da ala norte.
La fora, no jardim, onde eu costumava ficar sentado
por horas meditando, nos colocamos e começamos a conversar.
- E agora Elga, o que faremos?
- Fique tranqüilo Lucius, estamos onde deveríamos estar.
Apenas distraia o guardião até que eu finalize – Entendi o que ela queria dizer,
mas não sabia o que iria fazer. Mesmo assim resolvi seguir seu plano
mirabolante.
- Juan, você sabe de que plano minha avó falava no
salão? - Perguntei ao guardião.
- Claro que não, Lucius. Eu tenho um papel muito
importante aqui na Legião, mas não por isso que saberei de tudo que sua família
pretende. Mas posso lhe garantir que é para seu bem.
Juan confiava cegamente
na Legião que era regida pelos Wageners. E por algum motivo ele se tornara meu
guardião. Houve épocas em que eu tinha ate cinco guarda costas. Mas depois de
sua chegada a Legião, apenas ele me guardara.

