sábado, 20 de julho de 2013

1º capítulo
O Início



             
           
Dizem que a primeira vez é inesquecível e, de fato, foi o que aconteceu.

Eu ouvi, por de trás da janela, minha avó dizendo que seria naquela noite o RITUAL que me levaria a ao estado de Efatar, que é um tipo de nirvana e uma terminologia própria da magia. Logicamente aquilo, o ato de premeditar o acontecimento, havia me deixado ansioso e preocupado.


Ainda eram onze e meia da manhã. Eu brincava no quintal com minha bolinha amarela feita de pano, presente de minha avó Leoni.
           
A mente humana funciona de forma misteriosa, guardamos sensações que podem ser ativadas com imagens que a própria mente proporciona. Chamamos de lembranças.

E que ironia, aos sete anos conheci o único lugar que jamais esqueceria em toda minha vida.

Enquanto brincava com minha bolinha, sem querer, deixei que ela escapasse rolando floresta adentro.

Nossa mansão ficava próxima a um riacho que marcava o fim de nossa propriedade. Do lado de fora, onde eu brincava, existia um enorme campo gramado que terminava com o início de uma pequena parta da floresta que rodeava o riacho.

Crianças são curiosas e individualistas. Ao notar que minha bolinha se perdera na floresta, e com medo de ser repreendido, tomei a decisão de entrar e recuperar-la, afinal de contas era meu presente. Eu costumava supervalorizar coisas que ganhava principalmente se fosse de minha avó.

Tudo o que aconteceu dali em diante, aparentemente, estava envolto de uma aura mítica, percebi isso ao contemplar a presença da energia que me circundava. Uma floresta por si só remete essa ilusão.

Lembro-me do cheiro úmido e gelado do solo da floresta, das folhas em orvalho me tocando, espinho e pequenos galhos que rasgavam minha pele fina e branca enquanto eu adentrava no bosque descendo por terras íngremes. Suavemente meus pés tocavam no chão coberto por folhas secas e pouco iluminado entre os fechos de luz que proviam do sol em meio as arvores. Eu estava estremecido de medo, nunca havia tido tal experiência. Minha respiração ofegante tapou meus ouvidos, até que num suspiro enfático tudo se silenciou. Tudo estava calmo naquela hora, não existia mais barulho, não havia mais movimento, só um belo riacho, talvez o mais belo de todos os riachos da nobre França.

Sem sombras de duvidas aquele riacho marcaria minha vida e ficaria gravado em minha memória. Estas águas foram responsáveis por me apresentar as três pessoas que marcariam, de vez, minha estadia nesse mundo. A primeira foi Elga Banglynneet.

Extasiado pelo esplendor do riacho, que mais parecia um jogo de luzes do sol, nem percebi que ali do lado estava uma garota que aparentava ter a minha idade. Ela estava com minha bolinha na mão.

            - Oi – Me escapou vergonhosamente. Eu não tinha contatos com outras crianças e nem podia sair de casa. Aquele foi o primeiro dia, na qual não era minha intenção, que desobedeci às regras estabelecidas por Leoni.

Parada, me olhou por alguns instantes copiando de cima para baixo e vice versa. Em silencio ela me observava.

Minha avó tomava todos os cuidados para que eu não tivesse encontros assim, principalmente com pessoas que não faziam parte de nosso ciclo social. Acho que desde aquela época eu já tinha uma inclinação para fazer o que muitos chamam de maldade e minha avó sabia disso.  As pessoas que faziam parte do meu ciclo demonstravam receio e medo em minha presença. Certamente esse tratamento configurava o meu comportamento. Tímido e, muitas vezes, agressivo.

            Então entendi que seu silencio deveria estar relacionado com aquela visão que faziam de mim, e isso me deixou furioso. Coisas estranhas aconteciam quando eu perdia a razão, minha avó dizia que era por conta de minha energia que se dispersava de forma desenfreada e causava instabilidade no fino tecido entre o material e o espiritual. De fato era o que realmente acontecia.

-Oi – Respondeu num belo sorriso. Naquele momento, todos os pensamentos ruins que me seguiam e me atormentavam se esvaiam de minha mente como a relva do amanhecer que evapora com o calor do sol.

            - Está procurando pela bolinha? - Ela me perguntou. E ainda envergonhado respondi que sim.

- Eu me chamo Elga Banglynneet, qual é o seu nome? - Ainda sorria e emanava luz em seus olhos.

Tudo naquele instante parecia mágico. O sol tocava seu rosto e a iluminação dava um ar mítico enquanto que os reflexos que vinham do riacho transbordavam as árvores de luzes coloridas.

- Lucius Wagener.

- Moro logo ali depois daquele morro. Mais uma vez se dirigia a mim.

- Esta é a propriedade de minha Avó - respondi sem hesitar - moro logo mais acima, depois deste morro também - Ainda continuando - Você se perdeu?

- Não, sempre que me deprimo venho a caminhar na beira deste rio afim de que me acalme. E como disse, sei onde moro. Terminou a frase com uma gostosa gargalhada. Quão ignorante foi minha pergunta.
           
Percebi que não se tratava de uma menina qualquer, não falava como os plebeus, mas com classe e elegância.

Enfim, tudo começou naquele momento. Quando que em palavras sutis descobri que ela também descendia de uma linhagem de bruxos que, aliás, eram aliados de minha família. O que nos separava era apenas um riacho.

            Longo tempo de conversa se passou, gargalhamos juntos por muito tempo. Foi quando notei que entardecia e a preocupação com o que aconteceria naquela noite voltou a me atormentar.

- Seu semblante esta diferente, está preocupado com algo? Perguntou olhando fixamente em meus olhos. Expliquei o que ouvi de minha avó enquanto passava perto da janela.

- Não se preocupe. Tudo vai acabar bem e eu estarei aqui quando voltar – Elga dizia num sorriso contagiante.  

             Neste dia, conheci uma grande amiga que estaria comigo ate na hora de minha morte sem me trair, meu peito se encheu de esperança e uma verdadeira amiga me foi concebida. Podia ir para casa na esperança de vê-la novamente em outras ocasiões.





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