1º capítulo
O Início
Dizem que a primeira vez é inesquecível e, de fato, foi o que aconteceu.
Eu ouvi, por de trás da janela, minha avó dizendo que seria naquela noite
o RITUAL que me levaria a ao estado de Efatar, que é um tipo de nirvana e uma
terminologia própria da magia. Logicamente aquilo, o ato de premeditar o
acontecimento, havia me deixado ansioso e preocupado.
Ainda eram onze e meia da manhã. Eu brincava no quintal com minha bolinha
amarela feita de pano, presente de minha avó Leoni.
A mente humana funciona de forma misteriosa, guardamos sensações que
podem ser ativadas com imagens que a própria mente proporciona. Chamamos de
lembranças.
E que ironia, aos sete anos conheci o único lugar que jamais esqueceria
em toda minha vida.
Enquanto brincava com minha bolinha, sem querer, deixei que ela escapasse
rolando floresta adentro.
Nossa mansão ficava próxima a um riacho que marcava o fim de nossa
propriedade. Do lado de fora, onde eu brincava, existia um enorme campo gramado
que terminava com o início de uma pequena parta da floresta que rodeava o
riacho.
Crianças são curiosas e individualistas. Ao notar que minha bolinha se
perdera na floresta, e com medo de ser repreendido, tomei a decisão de entrar e
recuperar-la, afinal de contas era meu presente. Eu costumava supervalorizar
coisas que ganhava principalmente se fosse de minha avó.
Tudo o que aconteceu dali em diante, aparentemente, estava envolto de uma
aura mítica, percebi isso ao contemplar a presença da energia que me circundava.
Uma floresta por si só remete essa ilusão.
Lembro-me do cheiro úmido e gelado do solo da floresta, das folhas em
orvalho me tocando, espinho e pequenos galhos que rasgavam minha pele fina e
branca enquanto eu adentrava no bosque descendo por terras íngremes. Suavemente
meus pés tocavam no chão coberto por folhas secas e pouco iluminado entre os fechos
de luz que proviam do sol em meio as arvores. Eu estava estremecido de medo,
nunca havia tido tal experiência. Minha respiração ofegante tapou meus ouvidos,
até que num suspiro enfático tudo se silenciou. Tudo estava calmo naquela hora,
não existia mais barulho, não havia mais movimento, só um belo riacho, talvez o
mais belo de todos os riachos da nobre França.
Sem sombras de duvidas aquele riacho marcaria minha vida e ficaria
gravado em minha memória. Estas águas foram responsáveis por me apresentar as
três pessoas que marcariam, de vez, minha estadia nesse mundo. A primeira foi
Elga Banglynneet.
Extasiado pelo esplendor do riacho, que mais parecia um jogo de luzes do
sol, nem percebi que ali do lado estava uma garota que aparentava ter a minha
idade. Ela estava com minha bolinha na mão.
-
Oi – Me escapou vergonhosamente. Eu não tinha contatos com outras crianças e
nem podia sair de casa. Aquele foi o primeiro dia, na qual não era minha
intenção, que desobedeci às regras estabelecidas por Leoni.
Parada, me olhou por alguns instantes copiando de cima para baixo e vice
versa. Em silencio ela me observava.
Minha avó tomava todos os cuidados para que eu não tivesse encontros
assim, principalmente com pessoas que não faziam parte de nosso ciclo social.
Acho que desde aquela época eu já tinha uma inclinação para fazer o que muitos
chamam de maldade e minha avó sabia disso.
As pessoas que faziam parte do meu ciclo demonstravam receio e medo em
minha presença. Certamente esse tratamento configurava o meu comportamento.
Tímido e, muitas vezes, agressivo.
Então
entendi que seu silencio deveria estar relacionado com aquela visão que faziam
de mim, e isso me deixou furioso. Coisas estranhas aconteciam quando eu perdia
a razão, minha avó dizia que era por conta de minha energia que se dispersava
de forma desenfreada e causava instabilidade no fino tecido entre o material e
o espiritual. De fato era o que realmente acontecia.
-Oi – Respondeu num belo sorriso. Naquele momento, todos os pensamentos
ruins que me seguiam e me atormentavam se esvaiam de minha mente como a relva
do amanhecer que evapora com o calor do sol.
-
Está procurando pela bolinha? - Ela me perguntou. E ainda envergonhado respondi
que sim.
- Eu me chamo Elga Banglynneet, qual é o seu nome? - Ainda sorria e
emanava luz em seus olhos.
Tudo naquele instante parecia mágico. O sol tocava seu rosto e a
iluminação dava um ar mítico enquanto que os reflexos que vinham do riacho
transbordavam as árvores de luzes coloridas.
- Lucius Wagener.
- Moro logo ali depois daquele morro. Mais uma vez se dirigia a mim.
- Esta é a propriedade de minha Avó - respondi sem hesitar - moro logo
mais acima, depois deste morro também - Ainda continuando - Você se perdeu?
- Não, sempre que me deprimo venho a caminhar na beira deste rio afim de
que me acalme. E como disse, sei onde moro. Terminou a frase com uma gostosa
gargalhada. Quão ignorante foi minha pergunta.
Percebi que não se tratava de uma menina qualquer, não falava como os
plebeus, mas com classe e elegância.
Enfim, tudo começou naquele momento. Quando que em palavras sutis
descobri que ela também descendia de uma linhagem de bruxos que, aliás, eram
aliados de minha família. O que nos separava era apenas um riacho.
Longo
tempo de conversa se passou, gargalhamos juntos por muito tempo. Foi quando
notei que entardecia e a preocupação com o que aconteceria naquela noite voltou
a me atormentar.
- Seu semblante esta diferente, está preocupado com algo? Perguntou
olhando fixamente em meus olhos. Expliquei o que ouvi de minha avó enquanto
passava perto da janela.
- Não se preocupe. Tudo vai acabar bem e eu estarei aqui quando voltar –
Elga dizia num sorriso contagiante.
Neste dia, conheci uma grande amiga que
estaria comigo ate na hora de minha morte sem me trair, meu peito se encheu de
esperança e uma verdadeira amiga me foi concebida. Podia ir para casa na
esperança de vê-la novamente em outras ocasiões.
***

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