quarta-feira, 31 de julho de 2013

2º capítulo

O Alvorecer


Era uma bela noite. Os ventos sopravam calmamente sobre as folhas que dançavam o som que poucos podiam ouvir. E a lua vermelha iluminava o céu e tingia as poucas nuvens de laranja enquanto os grilos cricavam nas touceiras de mato que havia nos barrancos laterais da estrada que seguíamos em direção ao leste.

Existia um lugar, uma clareira no meio do bosque, que todos chamavam Vale do despertar. A maioria dos rituais de iniciação acontecia lá. As propriedades místicas que pairava naquele recanto tornavam o lugar privilegiado para receber ou fornecer grandes quantidades de energia. Seria este o lugar que eu iniciaria minha jornada como Bruxo, se não fosse uma fatal eventualidade que ocorreu no meio do percurso.

- Lucius, venha logo. Não se desprenda demais vislumbrando a noite e seus atributos - disse minha Avó, porem o que ela não sabia é que a grande razão de viver está nas pequenas coisas e que a única forma de viver realmente neste mundo é aproveitando intensamente cada momento, oportunidade – Venha, vai ficar para trás deste jeito.

Obviamente um evento destes, o fato que acontece apenas uma vez na vida, me deixava apreensivo, distante. Leoni tinha razão, eu estava disperso.

Tinham, pelo menos, dez pessoas caminhando conosco, parecia- me uma procissão. A diferença eram as mascaras. Não chegavam a ser deformadas, mas pareciam sátiras mantendo características caricatas com enormes narizes e sorrisos alongados.

Às vezes eu gostava de estar no centro das atenções, mas não gostava da idéia de ser especial. Não sei ao certo por que minha avó se preocupava tanto comigo naquela época. Talvez fosse pelas missões que me viriam quando fizesse quinze anos.

O ritual de iniciação deveria acontecer depois que a pessoa resolvesse ser um bruxo. E não quando está na condição de apenas uma criança. Mas Leoni estava tão confiante de que eu escolheria este caminho que resolveu antecipar sem me perguntar se era o que eu queria.

O Ritual da iniciação era considerado um dos mais importantes porque revelava a essência, o ser interior. Considerava-se como ritual do autoconhecimento.

Penso que o verdadeiro autoconhecimento vem apenas no fim da vida. Seria no dia da morte que o indivíduo realmente tomaria consciência do que era e o que veio fazer aqui. Comigo foi um pouco diferente. Eu conheci minha essência ainda criança e apesar desse encontro ter sido esclarecedor a confusão me seguiu até os dias de hoje.

Mas naquele dia minha curiosidade, traço que trago comigo, fez com que eu me jogasse nos planos de minha Avó.

- O que vai acontecer Vovó, quando eu iniciar? Perguntei para Leoni.

E sorrindo com olhar sereno ela me respondeu:
- Tudo o que você sempre sonhou.

Parecia-me tentador. Até os sete anos ainda não havia tido contato direto com magia. Apenas algumas visões sobre coisas que iam acontecer. Cheguei a pensar que não era bom em manipular energias.

- Hoje, Lucius, nossos irmãos te convidarão a entrar num mundo diferente, mas que está acoplado a este.

Os olhos de Leoni mudaram. De verdes claro passaram a aparentar uma cor amarelada semelhante ao mel exposto a luz. Uma grande energia emanava dela na medida em que discursava, não era apenas uma energia que se desprendia.

Outra qualidade minha era a de perceber a energia das pessoas. Alguns viam luzes, outros sentiam o cheiro.  Eu enxergava as cores da alma.

Sua expressão mudava cada vez que olhava para mim como se dentro de si habitassem outros seres que gritavam para se libertar - Meu filho – continuou – Venho lhe convidar a fazer parte desta Legião de caçadores, não de animais ou de qualquer tipo de presa vil, mas sim de criaturas místicas que maculam nosso mundo com maldade e perversidade.

Essa sensação, a energia que se desprendia, começara a me deixar eufórico. Meu corpo começou a tremer devido a adrenalina e minhas mãos suavam frio. Sentia um grande fluxo de energia transitando em meu corpo. Percebi que minha respiração estava lenta e que a sonolência tomava conta de mim. Mal podia ficar de pé.

- Lucius, está me ouvindo? - Perguntava minha avó enquanto me chacoalhava fortemente – você deve estar entrando em Efatar. Fique conosco, ainda não é a hora.


Leoni deve ter se frustrado vendo que nem tudo que ela previa acontecia. Minha iniciação começou ali mesmo. No meio da estrada. Eu entrava em Efatar pela primeira vez.

                                                 ***


sábado, 20 de julho de 2013

1º capítulo
O Início



             
           
Dizem que a primeira vez é inesquecível e, de fato, foi o que aconteceu.

Eu ouvi, por de trás da janela, minha avó dizendo que seria naquela noite o RITUAL que me levaria a ao estado de Efatar, que é um tipo de nirvana e uma terminologia própria da magia. Logicamente aquilo, o ato de premeditar o acontecimento, havia me deixado ansioso e preocupado.


Ainda eram onze e meia da manhã. Eu brincava no quintal com minha bolinha amarela feita de pano, presente de minha avó Leoni.
           
A mente humana funciona de forma misteriosa, guardamos sensações que podem ser ativadas com imagens que a própria mente proporciona. Chamamos de lembranças.

E que ironia, aos sete anos conheci o único lugar que jamais esqueceria em toda minha vida.

Enquanto brincava com minha bolinha, sem querer, deixei que ela escapasse rolando floresta adentro.

Nossa mansão ficava próxima a um riacho que marcava o fim de nossa propriedade. Do lado de fora, onde eu brincava, existia um enorme campo gramado que terminava com o início de uma pequena parta da floresta que rodeava o riacho.

Crianças são curiosas e individualistas. Ao notar que minha bolinha se perdera na floresta, e com medo de ser repreendido, tomei a decisão de entrar e recuperar-la, afinal de contas era meu presente. Eu costumava supervalorizar coisas que ganhava principalmente se fosse de minha avó.

Tudo o que aconteceu dali em diante, aparentemente, estava envolto de uma aura mítica, percebi isso ao contemplar a presença da energia que me circundava. Uma floresta por si só remete essa ilusão.

Lembro-me do cheiro úmido e gelado do solo da floresta, das folhas em orvalho me tocando, espinho e pequenos galhos que rasgavam minha pele fina e branca enquanto eu adentrava no bosque descendo por terras íngremes. Suavemente meus pés tocavam no chão coberto por folhas secas e pouco iluminado entre os fechos de luz que proviam do sol em meio as arvores. Eu estava estremecido de medo, nunca havia tido tal experiência. Minha respiração ofegante tapou meus ouvidos, até que num suspiro enfático tudo se silenciou. Tudo estava calmo naquela hora, não existia mais barulho, não havia mais movimento, só um belo riacho, talvez o mais belo de todos os riachos da nobre França.

Sem sombras de duvidas aquele riacho marcaria minha vida e ficaria gravado em minha memória. Estas águas foram responsáveis por me apresentar as três pessoas que marcariam, de vez, minha estadia nesse mundo. A primeira foi Elga Banglynneet.

Extasiado pelo esplendor do riacho, que mais parecia um jogo de luzes do sol, nem percebi que ali do lado estava uma garota que aparentava ter a minha idade. Ela estava com minha bolinha na mão.

            - Oi – Me escapou vergonhosamente. Eu não tinha contatos com outras crianças e nem podia sair de casa. Aquele foi o primeiro dia, na qual não era minha intenção, que desobedeci às regras estabelecidas por Leoni.

Parada, me olhou por alguns instantes copiando de cima para baixo e vice versa. Em silencio ela me observava.

Minha avó tomava todos os cuidados para que eu não tivesse encontros assim, principalmente com pessoas que não faziam parte de nosso ciclo social. Acho que desde aquela época eu já tinha uma inclinação para fazer o que muitos chamam de maldade e minha avó sabia disso.  As pessoas que faziam parte do meu ciclo demonstravam receio e medo em minha presença. Certamente esse tratamento configurava o meu comportamento. Tímido e, muitas vezes, agressivo.

            Então entendi que seu silencio deveria estar relacionado com aquela visão que faziam de mim, e isso me deixou furioso. Coisas estranhas aconteciam quando eu perdia a razão, minha avó dizia que era por conta de minha energia que se dispersava de forma desenfreada e causava instabilidade no fino tecido entre o material e o espiritual. De fato era o que realmente acontecia.

-Oi – Respondeu num belo sorriso. Naquele momento, todos os pensamentos ruins que me seguiam e me atormentavam se esvaiam de minha mente como a relva do amanhecer que evapora com o calor do sol.

            - Está procurando pela bolinha? - Ela me perguntou. E ainda envergonhado respondi que sim.

- Eu me chamo Elga Banglynneet, qual é o seu nome? - Ainda sorria e emanava luz em seus olhos.

Tudo naquele instante parecia mágico. O sol tocava seu rosto e a iluminação dava um ar mítico enquanto que os reflexos que vinham do riacho transbordavam as árvores de luzes coloridas.

- Lucius Wagener.

- Moro logo ali depois daquele morro. Mais uma vez se dirigia a mim.

- Esta é a propriedade de minha Avó - respondi sem hesitar - moro logo mais acima, depois deste morro também - Ainda continuando - Você se perdeu?

- Não, sempre que me deprimo venho a caminhar na beira deste rio afim de que me acalme. E como disse, sei onde moro. Terminou a frase com uma gostosa gargalhada. Quão ignorante foi minha pergunta.
           
Percebi que não se tratava de uma menina qualquer, não falava como os plebeus, mas com classe e elegância.

Enfim, tudo começou naquele momento. Quando que em palavras sutis descobri que ela também descendia de uma linhagem de bruxos que, aliás, eram aliados de minha família. O que nos separava era apenas um riacho.

            Longo tempo de conversa se passou, gargalhamos juntos por muito tempo. Foi quando notei que entardecia e a preocupação com o que aconteceria naquela noite voltou a me atormentar.

- Seu semblante esta diferente, está preocupado com algo? Perguntou olhando fixamente em meus olhos. Expliquei o que ouvi de minha avó enquanto passava perto da janela.

- Não se preocupe. Tudo vai acabar bem e eu estarei aqui quando voltar – Elga dizia num sorriso contagiante.  

             Neste dia, conheci uma grande amiga que estaria comigo ate na hora de minha morte sem me trair, meu peito se encheu de esperança e uma verdadeira amiga me foi concebida. Podia ir para casa na esperança de vê-la novamente em outras ocasiões.





***




sexta-feira, 19 de julho de 2013


PARTE 1
LUCIUS WAGENER

Prólogo





 Acho que não me lembro quanto tempo faz desde que deixei minha casa. E nem sei onde me encontro no que diz respeito a equilíbrio mental. Apenas estou nesta maldita caverna esperando a morte chegar.
     
         Sim. Algo de ruim deve ter acontecido para que hoje eu pense desta forma. Ninguém deseja ser capturado ou julgado por crimes não cometidos. Seria uma injustiça.

 Mas tudo é uma questão de perspectiva, e a minha é que a vida só nos da uma coisa que podemos ter certeza. Mas garanto-lhes que ninguém quer tão cedo.
 A morte.

 O resto é fruto de nossas conquistas lastimáveis em uma vida confusa e inescrupulosa. Se aprendi algo com a vida, foi que a própria e um disfarce para a dor e o sofrimento.

 Mas chega, não é disso que quero falar agora.

             Antes de ser assim, mal humorado e anti-social, eu era uma pessoa normal como todas as outras - Hump - E qual seria o significado para a palavra normal?

 Meu nome é Lucius Wagener, sou de uma família de bruxos renomados de uma linhagem nobre aqui da França.

Sempre pensei que a vida não havia sido justa comigo, pois minha infância não fora como a de todas as crianças que eram cheias de brincadeiras e diversões. Eu era dono de um raro dom místico e único dentre os bruxos da época, e isso me tornava especial. No inicio tudo era bom, sempre fui muito bem tratado por todos da legião, tinha tudo o que queria.
         
          Embora parecesse um berço de ouro aquilo era uma prisão, pois não suportava os traidores insolentes que estavam ao meu redor, me servindo como se nada fosse acontecer.

A capacidade de ver aquilo que ainda não foi visto, para quem está de fora, parece ser uma habilidade interessante. Mas quando você olha para frente e vê o que esta por vir, tudo muda. E isso não é muito vantajoso. O usuário da visão acaba por se desorientar e se perder num mundo de possibilidades.

 No entanto, em momentos raros, o que fazia a diferença e me tornava especial, era possível ver o que era imutável. Nada pode mudar o imutável, é uma máxima temporal. E isso era de difícil compreensão para meus companheiros que acabaram por me trair.

 Um monstro, um homem?

Não sei ao certo como definir isso. Um bruxo poderia ser considerado um monstro amaldiçoado pelo demônio. Ideologias da igreja que destruíam aquilo que não conheciam.  Mas também era um homem que tinha sentimentos e uma rotina idêntica aos outros. Pelo menos era o que imaginavam. O que me parecia não fazer sentido era que todo o homem poderia ser um bruxo, no entanto, nem todos tinham a predisposição. Descobri isso de uma forma muito curiosa.


Houve um dia em que, absolutamente, minha vida toda mudaria. O dia de minha iniciação.