10º Capítulo
Enrascada
Ouvia fortes estrondos enquanto
corria. Nas paredes viam-se flashes de luz constantes. A batalha havia
começado.
Subi as escadas rapidamente. Juan
orientou-me para que não parasse em hipótese alguma. No entanto, era de minha
natureza a curiosidade. Olhei para traz e vi a movimentação que acontecia no
saguão.
Outro estrondo ocorreu e então
cinco soldados foram jogados para trás.
- O que faria uma coisa dessas? – Dizia baixinho. A questão
não deveria ser o que, mas sim quem faria uma coisa assim? Quem seria tão
insano ao ponto de invadir nossa casa?
Fiz exatamente o contrário do que
Juan me orientou e comecei a diminuir a velocidade. Antes de chegar ao último
degrau presenciei um acontecimento que definiria minha linha de pesquisa na
bruxaria.
Um homem alto, com um Sobretudo,
apareceu na porta que dava entrada a biblioteca. Entraram pelos fundos e se
infiltraram rapidamente pela casa. Eram muito poderosos, ou pelo menos era o
que aparentava. O homem levantou a mão esquerda e, curiosamente, fez surgir uma
bola flamejante. Entretanto, não havia conjurado verbalmente coisa alguma, não
dissera uma só palavra.
La de baixo o homem elevou a
cabeça e me fitou com olhar tenebroso. Seus olhos também apresentavam um
aspecto brilhoso como os de Juan e Leoni.
- Será que é uma magia? – questionava-me.
Sua energia assinava a maldade.
Ele, sem sombras de dúvida, estava determinado a me exterminar.
Percebendo que eu alcançava a
porta andou três passos e lançou a bola de fogo em minha direção. Teria me acertado,
não fosse a intervenção de Juan. A bola se desfez no ar.
Pela entrada da ala leste
ressurgia Juan. Carregava em sua mão esquerda um cajado. O homem, estático,
fixou a visão em Juan que já estava a sua frente, talvez três ou quatro metros.
Juan iniciou o ataque investido
com um soco direcionado ao rosto do indivíduo que desviou e devolveu com o
mesmo golpe. Juan era veloz e se esquivou inferindo mais um tentativa no adversário
que, desta vez, foi golpeado na região abdominal.
Suas mãos começaram a flamejar
novamente, sem nenhuma invocação, e um ataque, mais poderoso que o anterior,
fora lançado em Juan que levantou as mãos e, também sem dizer nada, criou um
campo luminoso em volta de si que o protegeu das chamas mortais do inimigo.
- Excepcional –
Fiquei encantado com o que estava vendo – Como pode alguém invocar sem ao menos
dizer uma palavra? – Até aquele momento apenas havia estudado sobre invocações
verbais onde eu chamava o que queria. Aquilo tudo era novo. Sem sombra de
dúvidas estavam em outro nível.
Já conseguia ver a porta do meu
quarto quando cheguei ao corredor superior, mas resolvi, contrariando
severamente as regras de Juan, parar e apreciar a batalha.
Senti que mais bruxos se aproximavam
do saguão, uma soma razoável levando em consideração a mansão que estavam
invadindo. Eles já estavam mortos, mesmo se conseguissem escapar dali com vida,
Leone os caçaria pelo resto de suas vidas e quando os encontrassem seria uma
verdadeira cena de tortura e sofrimento.
Mais três bruxos apareceram
aliando-se ao homem das mãos de fogo. O primeiro que apareceu era baixo, usava
uma capa acinzentada e com pelos em torno do pescoço. O segundo era de altura
mediana e usava roupas de plebeu, tudo muito simples. E o terceiro era mais
alto, usava vestimenta de tecido fino. Tratava-se de uma equipe formada por
verdadeiros ideais, e não apenas calcados numa convenção de linhagens sanguíneas.
O único problema é que eles queriam me matar.
Agora eram quatro contra um.
Mais uma esfera de fogo fora
criada e essa era ainda maior do que as outras. Os outros três se posicionaram
circundando Juan e, semelhantemente, criaram energia Elemental em suas mãos.
Fogo, raio, água e gelo eram os elementos conjurados pelos bruxos. Em um ataque
conjunto combinaram suas energias lançando simultaneamente em direção a Juan. O
que aconteceu dali para frente fora, de fato, algo surpreendente.
Juan olhou para todos os lados na
tentativa fútil de encontrar uma saída, no entanto não obteve sucesso. Embora
parecesse o fim para o guardião, mais uma reviravolta estava para acontecer. Tornou
a olhar para o “mãos de fogo” e elevou o cajado poucos centímetros do chão
conjurando mentalmente alguma magia. Quando martelou com seu cajado no chão do
saguão um eco ressoou e tomou conta do ambiente. Então o som e o movimento se
tornaram lentos gradativamente. Tão devagar que quase chegaram ao silencio
absoluto. Tive a impressão de que o tempo parava.
- Mais uma magia ou apenas um delírio de minha parte? – questionei-me.
Os elementos que, tomavam lugar
no espaço e tempo, percorriam vagarosamente o caminho convergindo-se no ponto
central onde Juan se encontrava.
Juan se retirou daquele ponto com
sutileza. Parecia até que não era afetado pelo tempo, que estava isento às leis
da natureza. De forma incrível ele saia da zona de convergência dos elementos
livrando-se de outro ataque mortal. Como se não bastasse sacou uma adaga da cintura
e golpeou seus quatro agressores apunhalando-os no peito finalizando a batalha.
Lá de baixo Juan fitou-me, com os
olhos brilhantes cor de mel, e o tempo começou a correr normalmente.
Eu tinha curiosidade sobre
qualquer coisa que se relacionasse com o tempo. Uma vez que o meu maior trunfo
sobre os adversários era justamente poder
vê-lo.
- Cammus stratus – Disse
outro invasor que se aproximava pela porta lateral do saguão. Desta vez foram
mais rápidos que Juan. Pude sentir na energia de Juan o que ele queria me dizer
e acatei, sem mais delongas, sua ordem.
Não sei ao certo o que acontece
com ele no saguão. Sabia que sairia com vida da batalha, mas eu perderia a
parte mais interessante da luta. Apenas segui suas ordens e adentrei no meu
quarto a fim de alcançar o esconderijo.
Juan realmente era muito
talentoso no que se referia a magias. Naquele pequeno momento em que estive
vislumbrando sua batalha pude perceber algumas coisas em sua alma. Umas, em
particular, me deixaram muito curioso a seu respeito. Nunca tinha visto Juan em
uma batalha e a minha primeira experiência com essa situação me rendeu
conhecimentos valiosos sobre o tempo e o espaço. Em primeira vista Juan era
exatamente igual aos outros bruxos. Mas eu não entendia o porquê dos olhos
brilhantes. Notavelmente compreendi que se tratava de uma submaterialização. A
energia estava entre os dois mundos. O espiritual e o físico. Por isso a
latência em seus olhos.
Uma segunda coisa que me chamou a
atenção, e que foi possível compreender naqueles breves momentos, foi a
ausência das palavras de invocações. Tudo que existe, tudo o que pensamos passa
por um processo em nossas mentes. Elas ganham imagens, que são instantaneamente
traduzidas para sensações, que por sua vez terminam por serem transmitidas como
sentimentos. Ninguém melhor do que eu para compreender isso, já que essa era
uma habilidade inerente ao meu espírito. Para a boa execução da magia o bruxo deve explorar o seu sentimento e
usá-lo para moldar sua energia.
Em outras palavras, ele sentia o
que queria fazer trocando a palavra pela imagem gerada mentalmente, pulando a
etapa da execução verbal.
E um terceiro fato, não menos importante,
que pude perceber estava introjetado na alma de Juan. Assemelhava-se a uma
bússola. Uma energia misteriosa que poderia, por breves momentos, burlar o
tempo e o espaço.
Chamavam isso de Dom Especial. Assim como eu, com o Dom da Previsão, Juan possuía uma
habilidade rara. Essa energia que, provavelmente, nasceu com ele dava suporte
para tal façanha. Dobrar o tempo e o espaço. Era incrível.
Cheguei a essas conclusões percorrendo o pequeno corredor
que, após as escadas, dava acesso ao meu quarto. Porem, nem tudo saem da forma
que planejamos.
Fizemos aquelas encenações centenas de vezes, tudo deveria
acontecer exatamente como o protocolo previa. Em caso de invasão eu deveria
correr e me esconder no quarto enquanto os soldados lutam para defender minha
família. Se bem que eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Quem seria
louco o suficiente para invadir a mansão dos Wageners? E quem disse que numa
situação real tudo sairia exatamente como o combinado?
Quando entrei no quarto e direcionei-me ao local secreto,
percebi outras presenças no ambiente.
Eu não estava sozinho.
No meio do quarto, olhando para todos os lados, notei que
estava cercado por três militantes Grannins.
Ambos armados com espadas emanavam sentimentos de altruísmo à piedade,
apertavam o cerco em minha direção. Eu não sabia o que fazer. Não fazia parte
do protocolo.
Era uma verdadeira
enrascada.